Elomar – O Menestrel Sertanez, Caatinguez

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Elomar Figueira Mello nasceu em Vitória da Conquista, a 21 de dezembro de 1937. A formação protestante foi herdada da família. Entre o sertão e a capital, estudou e, mais tarde, formou-se em Arquitetura pela Universidade Federal da Bahia, no final da década de 60. Teve uma passagem rápida também pela Escola de Música dessa Universidade. Depois que gravou seu primeiro disco “…Das Barrancas do Rio Gavião”, passou a investir mais na sua carreira musical, mas foi só no final dos anos 70 e início dos 80 que deu menos ênfase à arquitetura para dedicar-se à peregrinação pelos teatros do país, de palco em palco, tocando e interpretando o seu cancioneiro e trechos do que viriam a ser suas composições de formato erudito, como autos.

Casado com Adalmária de Carvalho Mello, pai de Rosa Duprado, João Ernesto e João Omar, e avô de Gabriela Mello, Elomar prefere viver o mais longe possível da urbis, ora na sua fazenda às margens do Rio Gavião, ora na Gameleira, ambas imortalizadas em suas canções. Atualmente o cantor está preparando-se para, mais uma vez, correr o país com o seu mais recente projeto: Cenas Brasileiras. Depois de ter selado o caderno do cancioneiro, como ele próprio anuncia, Elomar tem dedicado-se mais intensamente à execução de suas antífonas (cantos de louvor à Deus), galopes estradeiros (sinfonias compactas) e óperas.

Nessa nova fase, o cantor tem desenvolvido seu trabalho de uma forma diferente daquela pela qual foi projetado para o “grande público” através da mídia, depois da repercussão do trabalho “Cantoria”. Apesar do veio menestrelesco, Elomar assinala que o seu trabalho não parou nas canções e que a sua meta é levar ópera para o povo. É através do dialeto sertanez e da figura do catingueiro que ele canta as vicissitudes humanas, que são universais.

Inter-Vivus

A Infância

O Sr. Ernesto Santos Mello, filho de tradicional família de fazendeiros da Zona da Mata, Itambé e da região do Mata-de-Cipó de Vitória da Conquista, casou-se com D. Eurides Gusmão Figueira Mello, de ascendência hebraica (cristão novo da linhagem Figueira e Azeitum).

Por dificuldades econômicas ou mesmo por costume da época, quiçá, habitaram nos primeiros tempos a velha casa da Fazenda Boa Vista , propriedade de Virgílio Figueira e D. Maricota Gusmão Figueira.Ali, naquela velha casa onde pousaram levas e levas de retirantes flagelados das grandes secas cíclicas do sertão nordestino, aos 21 de dezembro 1937, nasceu Elomar Figueira Mello, primogênito do jovem casal.

Aos três de idade, face a fragilidade da saúde do menino, seu pais alugaram, na cidade de Vitória da Conquista, uma pequena casa numa rua chamada Nova. Enquanto seu pai se ausentava por longos períodos períodos na lida tanger das boiadas, D. Eurides, ao som da velha máquina de costura, ganhava o pão, ao tempo em que embalava o frágil menino. Aos sete anos de idade, seus pais deixaram definitivamente a vida urbana, transferindo-se para o campo, onde Elomar, com seus irmãos Dima e Neide, perpassou toda infância pelo São Joaquim, Brejo, Coatis de Tio Vivaldo e Palmeira de Tio Kelé. No São Joaquim, berço da 2a infância, cursou parte do primário escolar, completando este e o ginasial na cidade no ano de 1953.

A música e a poesia essencial, com a força de sus encantamentos, despertaram o compositor numa idade muito tenra e o poeta, um pouco mais tarde. Aos sete anos, no São Joaquim, os primeiros contatos inevitáveis com a música profana de menestréis errantes, como Zé Krau, Zé Guelê e Zé Serradô, tem maior importância, destacando-se o primeiro pela forma esdrúxula de suas parcelas ou pelas narrativas épicas amargas que já despertavam profundos sentimentos na alma do embrionário compositor. É bom assinalar que até então só tinha ouvido a música eclesiástica do hinário cristão, do culto batista evangélico, fé única de sua família da parte de sua mãe.

Assim que ouviu os primeiros acordes de violas, violão e sanfona e as primeiras estrofes das tiranas dos cocos e parcelas dos três Zés, têm início as primeiras fugidas de casa, pelas bocas-da-noite, não só para ouvir como também, por excelência, para aprender os primeiros tons no braço do violão, o qual será, a partir dali, seu instrumento definitivo. Note-se bem que estas proezas davam-se às voltas e muito às escondidas, pois não só para seu e parentes, como também para toda sociedade de então, labutar com música era coisa de vagabundo. Tocar de violão, viola ou sanfona era sinônimo de irresponsável, puxando mortificado a escrita universal, a partitura e o que mais lhe assombrou: a existência de milhares de músicas, escritas por milhares de compositores que viveram a partir de centenas de anos passados.

Em 1954, de malgrado, deixa o curral, o roçado e os folguedos da vida pastoril, para ir cursar o científico no Palácio Conde dos Arcos em Salvador. Em 1956, interrompe o curso o curso e volta à terra natal para servir ao exército, passando a morar com sua avó paterna na mesma fazenda, vizinho bem próximo da velha casa onde nasceu. A partir dos dezoito anos, a casa de mãe Neném, sua avó, será sua morada toda vez que voltar de férias da capital, embora visite constantemente sua avó Maricota na cidade e seus pais no São Joaquim. Esta preferência de habitação deve-se ao fato único de mãe e Neném, em sendo católica apostólica, Ter sido mais tolerante com o tipo de vida do moço poeta, de perfil boêmio. Em 1957, novamente em Salvador, conclui o científico. Em 1958, perde o vestibular de vestibular de geologia, face o já grande enredamento com a música nos meios intelectuais dali. Em 1959, faz o vestibular para arquitetura. Conclui o curso em 1964, após o que, incontinente, regressa de modo decidivo e definitivo ao Sertão para, tendo a arquitetura como suporte econômico mínimo, escrever sua obra.

A Maturidade

Em 1966, já arquiteto e morando no sertão, casa-se com Adalmária, doutora em Direito e filha da capital, contudo de origem “sertaneza”, da qual nascem Rosa Duprado, João Ernerto e João Omar. Enquanto muito trabalha a arquitetura, menos vai compondo, sonhando com certa estabilidade econômica (que nunca chegou) para dedicar-se integralmente à música.

Em 1969, sela o caderno da sua primeira ópera, o “Auto da Catingueira”, mais tarde, parcialmente partiturada, face o caráter popular da obra. Durante a década de 70, projetou muito da arquitetura e um pouco mais na música. No começo dos anos 80 inicia a carreira de peregrino menestrel, de viola na mão, errante, de palco em palco pelos teatros do país, conquistando uma pequena platéia de poetas, músicos, compositores e de intelectuais de linhagem pura, sem calças modernosas e, por fim, de simples pessoas do povo, atraídas mais pela linguagem dialetal, a linguagem fora de moda e (segundo Dr. Raimundo Cunha) indançáveis.

A partir daí, quando já abandonando a profissão liberal e em firmando-se mais fundamente na composição, compõe a Fantasia Leiga para um Rio Seco, confiando a escrita orquestral a seu amigo e patrício de sertão Maestro Lindembergue Cardoso, por ainda ser “ananota” em escrita para orquestra. Em 1983, por ocasião da gravação do Auto da Catingueira, na Casa dos Carneiros, fazenda onde mora desdo 1980, faz sua primeira incursão no universo orquestral, quando partitura a abertura do Auto da Catingueira para violão, flauta e violoncelo.

A partir de 1984, ainda na fase das canções, começa a esboçar a sequência das óperas e das antífonas. É quando escreve as antífonas n0 01- Loas para o justo – para barítono e quarteto misto; n0 02 – Balada do Filho Pródigo – para tenor, côro e orquestra; em 1988, a de n0 03 – Incelença ad Moribundum Solem – para côro e orquestra; em 1990, a de n0 04 – Meditações a partir de Romanos 7 – para côro e orquestra. Em 1993, a de n0 11 – Alfa – para violão e orquestra, ou seja, um concerto para violão e orquestra.

As antífonas de números 6, 7, 8, 9, 10, 11 Beta e 11 Pi estão praticamente compostas, faltando apenas irem para partitura.

Po outro lado e paralelamente às antífonas, a partir de 84 começa também mais propositadamente a fase das óperas, porquanto já estão em partitura. A Carta, Ópera em quatro cenas, O Prólogo de O Retirante, ópera em dois atos. As outras óperas, Faviela, O Peão Mansador, A Casa das Bonecas, Os Poetas são Loucos mas Conversam com Deus, De Nossas Vidas Vaporosas, Os Lanceiros Negros e Os Pobres, os Miseráveis e os Desvalidos, já estão quase todas compostas, faltando tão somente serem partituradas.

Ainda em paralelo vem a série dos Galopes Estradeiros, que trata de sinfonias compactas. Desta já se encontra em partitura o primeiro Galope Estradeiro. O segundo, o terceiro e o quarto já estão mais do que esboçados.

Atualmente, Figueira Mello já um pouco mais adiantado na estrada, aos seus 56 anos de idade, continua compondo intensamente, varando os dias e as noites sem descanso. No seu labutar, confessa que tem de escrever sem perda de tempo, pois que a obra é imensa e o tempo já declina pela tarde. Já faz os primeiros ensaios de deixar a Casa dos Carneiros, na Gameleira, para então se transferir definitivamente para as margens do Rio Gavião, nas Duas Passagens, onde demorou por um bom tempo de sua vida e donde saiu o grosso do ciclo das canções. Ali de volta, pretende concluir sua obra bem longe, bem distante dos mundos urbanos, pois não é só sua obra, como também sua própria pessoa, não são outra coisa senão antagônicos – dissidentes irrecuperáveis de sua contemporaneidade tendo em vista sua formação estritamente clássica e regionalista. Daqui leu todos os poetas, escritores e profetas hebreus; leu os mélicos e os clássicos gregos; os latinos, incluindo Esopo e o Fedro; os italianos, franceses, ingleses, espanhóis, russos e, por último, os alemães, tendo, é claro, antes disto, perpassado pelos essenciais patrícios.

A partir dos dezessete, já enveredava-se pelas novelas de cavalaria, em leituras longas e sonhadoras. Bate-se frontalmente com a chamada arte contemporânea. Horror à dita cultura (que, segundo ele é um DX, salvo o bom cinema) estadunidense da América do Norte, o que lhe traz à lembrança palavras de antigas profecias “sertanezas”, que sentenciaram: “que haverá de chegar um tempo de baixar os muros e levantar os munturos – vivemos o tempo do culto às nulidades. São os minimalismos que estão chegando…”, clama o compositor.

Assim, para Elomar Figueira Mello o que importa é concluir suas óperas, antífonas e galopes, pôr tudo em partituras a nanquim e enfardados em campa antiga, guardar o monobloco passageiro do tempo até a estação futura, benvinda quadra remota, onde o aguarda uma geração que, por justiça, haverá por certo de ouvir e amar sua música tão fora de moda nestes dias. Ó Tempora! Ó Mores!

Pode-se ler suas letras no seguinte sítio: Corpus Elomarianum

Uma resposta

  1. Ouço e curto Elomar desde minha adolescencia,este magnífico músico,mantém forte o amor;rural,levando -nos à uma maravilhosa viagem ao passado,e mais interessante!!! sempre quando o ouço me envolvo nesta raiz ;forte,que fica ai no sudoeste baiano;Vitória da Conquista.

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