Sobre Oswaldo Lamartine

Retirado de Diginet Notícias

O maior legado de Oswaldo Lamartine foi o respeito à tradição
30/03/2007

O sertão regou seus traçados intelectuais de onde brotaram discursos evocativos do passado sertanejo. Através da caligrafia transformou a linguagem, os costumes, as tradições e os afazeres mais simples do dia-a-dia rural em literatura que hoje abastece desde os curiosos até os estudos científicos. Com a genialidade que só brinda os sábios, preservou nas letras as características que fazem de alguns um sertanejo autêntico. Seu esmero pelo que provinha do campo o transformou em o maior sertanista brasileiro na opinião de Ariano Suassuna e Rachel de Queiroz. Oswaldo Lamartine de Faria construiu uma história, de 87 anos, alicerçada nos aboios, nas facas de ponta, nos arreios do vaqueiro, nas roupas de couro, nos ferros de Ribeira, nas abelhas do Seridó…

Homem alto, magro e esguio, nos últimos anos carregava uma fisionomia maltratada pela ausência de saúde. Uma cirurgia no cérebro realizada há mais de três anos deixou o escritor, etnógrafo e pesquisador com dificuldades na deglutição e na fala, sua alimentação era realizada através de uma sonda. Vivendo nessa situação ele costumava dizer que era “um lixo hospitalar”. Pessoa de personalidade reclusa, nos últimos tempos optou em morar sozinho, em um apartamento no Potengi Flat. Mas esse sempre foi um traço que o acompanhou, antes de adoeceu e mudar-se para Natal, passava seus dias na companhia da paisagem sertaneja, na sua tão querida Fazenda Acauã, a 18 quilômetros do município de Riachuelo.

Caminhos

A história desse sertanejo convicto começou em natal, em 15 de novembro de 1919, durante uma forte seca que castigava seu sertão. Caçula dos dez filhos do ex-governador Juvenal Lamartine de Faria e Silvina Bezerra de Faria, herdou descendência seridoense. Os primeiros passou no estudo foram dados na escola da professora Belém Câmara (1927), seguido do primário cursado entre 1928 e o primeiro ano da década de 30, no Colégio Pedro II, do professor Severino Bezerra. Em 1931 frequentou o Ginásio do Recife saindo em 33 para o Instituto La-Fayette, no Rio de Janeiro, onde permaneceu até 38. Dois anos depois ingressou na Escola Superior de Agricultura de Lavras, em Minas Gerais, onde em 1940 tornou-se técnico agrícola.

Entre 1941 e 48 administrou a Fazenda Lagoa Nova, em Riachuelo. Seu casamento com Cassilda Aranha Soares ocorreu em 44, logo em seguida nasceu Isadora (1945-1972) e Cassiano (1948), que é agrônomo da UFRN. Foi professor da Escola Doméstica de Natal, da Escola Técnica de Jundiaí, foi pracinha durante a Segunda Guerra Mundial. Junto com a década de 50 veio a mudança para Macaé, no Rio de Janeiro, para administrar a Fazenda Oratório. Ainda administrou a Colônia Agrícola Nacional do Maranhão (1951-1952) e o Núcleo Colonial do Pium/RN (1952-1954). Passou a ser funcionário do Banco do Nordeste do Brasil em 1955, cumprindo sua função primeiro em Fortaleza, depois no Rio de Janeiro (a partir de 57). No banco permaneceu até se aposentar em 1979, antes disso voltou para Natal, em 66.

Sertão

Depois do período no Rio refugiou-se na Fazenda Acauã, onde morou até novembro de 2005. No campo mantinha uma vida simples, como um puro sertanejo. Acordava cedo, quebrava o jejum com um prato de coalhada, passeava pelo campo e lia até a hora do almoço. Quando o sol começava a cair fazia outra caminhada, à noitinha novamente tomava coalhada, assistia ao noticiário e ia se deitar.

Em entrevista concedida à jornalista Sheyla de Azevedo, publicada pelo Diário de Natal em 28 de maio de 2000, Oswaldo conta que começou a se interessar pelos assuntos ligados ao homem do sertão quando seu pai, Juvenal Lamartine, adquiriu uma grande propriedade em São Paulo do Potengi. “Nós tínhamos apenas uma casinha muito humilde de morador e eu fui montar a propriedade – montar significa estabelecer limites, cercar, construir açudes, fazer subdivisões, casas, currais, povoados, tudo”, relata o pesquisador. Na época, com 21 anos, seu pai chamou dois parentes de Serra Negra para o ajudar na pecuária e na agricultura. Ao final do dia de trabalho ele se dedicava às histórias contadas pelos parentes, o memorialista Donato Liberato Dantas e Pedro Ourives, um artesão do couro. “Quando Donato, um especialista em pesca, fez uma tarrafa para pescar no açude, eu, por curiosidade, comecei a anotar desde o nó que ele dava, seu nome e o porquê que se fazia. A mesma coisa aconteceu com Pedro, que era um grande coureiro e fazia roupas e artefatos de couro. Por aí eu fiz Coramentos de Arreio, Vaqueiro, Construção de Açude e ABC de Pescarias de Açude”, contou na ocasião.

Estudos

Os costumes do velho sertão o levaram a fazer uma série de estudos. Ele se dizia influenciado pelo pai, Juvenal Lamartine, e por Luís da Câmara Cascudo. Mas essa influência tem origem em seus antecessores. Enquanto vivia a juventude, Cascudo buscava em Juvenal Lamartine uma fonte para matar as suas curiosidades sobre o sertão. Tempos depois, Oswaldo buscava em Cascudo uma referência para seus questionamentos. A amizade entre os dois se perpetuou durante o período que Lamartine morou no Rio, foram várias as cartas trocadas entre os mestres da palavra. Tais cartas terminaram por virar um livro, De Cascudo para Oswaldo, lançado em agosto de 2005 pela editora Sebo Vermelho e a Coleção Mossoroense.

Ainda durante entrevista à Sheyla de Azevedo, ele admitiu que um dos temas mais apaixonantes tinha sido falar sobre faca de ponta, “me apaixonou porque foi uma informação que Cascudo me pediu para a um professor. Eu fiz Apontamentos sobre a faca de pontas para um pesquisador do Paraná que estava pretendendo fazer um trabalho sobre as facas daquela região e apelou para Cascudo. Cascudo já não tinha mais condições – imagino eu. Então ele empurrou para mim. Mas não era que eu merecesse, é que ele não tinha mais condições de fazer”, revelou com humildade.

Oswaldo sempre fui um crítico ferrenho da modernidade, pois afirmava que ela estava descaracterizando o sertanejo. Dizia que a televisão era uma “peça de pior qualidade” e tinha se tornado a grande professora do país urbano e rural. Com isso tinha influenciado a mudança no linguajar e nos costumes do sertão, onde os homens haviam trocado o cavalo pela bicicleta, passaram a utilizar nomes americanos no comércio, deixaram de usar as roupas de couro e de aboiar.

Livros

O sertanista começou a publicar seus escritos no final da década de 40, deixando preciosas contribuições para os pesquisadores. Ele foi atrás das tradições populares. Seus estudos estão publicados em 21 livros que abordaram o vocabulário potiguar, as abelhas do sertão, a conservação dos alimentos, os pseudônimos e as iniciais potiguares, pescaria, construção de açudes, entre outros temas ligados ao mundo sertanejo.

Recebeu alguns título em vida. Em 14 de novembro de 2001 foi empossado como membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras, na cadeira 12 que também foi ocupada por seu pai e por Veríssimo de Melo, e cujo patrono era Amaro Cavalcanti. Em 2003 foi agraciado pela Fundação Joaquim Nabuco, com sede em Recife, com o título de “pesquisador emérito”. E, em 16 de novembro de 2005, recebeu o título de Doutor Honoris Causa, concedido pela UFRN.

Apesar de ter momentos de rispidez, mantinha o humor, fato percebido durante qualquer conversa com o pesquisador que foi elogiado por Gilberto Freyre e José Lins do Rêgo. O primeiro, em artigo publicado na revista O Cruzeiro, em 1948, cita Oswaldo como uma revelação de estilo na etnografia brasileira. Em outro momento afirma que, ao lado de Cascudo, Oswaldo se tornou um mestre em assuntos nordestinos. José Lins registrou: “…muito teria que aprender com o jovem ensaísta riograndense do norte”.

Nota: este quem vos fala não encontrou o autor do texto acima

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