Retirado do Blogue Contos de Marta Arruda
A dança do Congo – V. B. da Santíssima Trindade
Almoçamos uma galinhada, farofa de banana, feijão empamonhado e salada de legumes. Após, fiz o “quilo” na cama de casal do Carlinho, forrada com uma colcha lindíssima hiper colorida. Levantei-me e pedi ao meu amigo para me contar sobre a Festa do Congo em si.
- Sabia que você me pediria… Vamos lá. O Congo trata-se de uma evolução, um jogo, a céu aberto que descortina, com sua força, a rotina do Guaporé. É uma recordação do fugaz passado. A história milenar, pelo seu rito, atualiza-se, revela-se moderna, pujante e delicada. Há um significado afro dado aos santos católicos. A cidade toda se enfeita e há abastança, gestos que se dividem, compartilham e se identificam.
Vários personagens participam em diversos dias aos olhos curiosos dos vilabelenses: o rei do Congo, acompanhado de seu secretário de guerra e do filho, o Kanjinin; o rei de Bamba, na verdade, entidade ausente e representada por um embaixador. Há doze pares de guerreiros que formam o exército do último rei (entre os quais, estão os músicos, tocadores de tambor, ganzá, viola e chocalho).
Vão de casa a casa, até que chegue o último participante do exército do Rei do Bamba, cuja intenção é casar-se com a filha do Congo, cheio de ardis, recuos e estratégias. O Congo é um jogo de memorização, cheio de palavras e expressões africanas, afirmadas e reconsideradas ao longo dos embates, travados entre as suas partes contendoras. Há uso de signos cristãos – juiz e juíza – e a festa se desenrola em espaço profano, na rua, ao desvendar todo universo da religiosidade afro, a qual não se perde com a poeira dos anos. É forte a força dos signos africanos que, uma vez usados, ditam o desenlace da contenda. O Rei do Congo, afinal, sem guerreiros, apenas com ajuda de seu secretário de guerra, geralmente vence o exército inimigo.
- Marta, se você fosse lá veria o festival de cores concentradas em rimas e marchas, que crescem com a proximidade da igreja central, e finalmente da praça. Começa a luta entre o Rei de Bamba e o Monarca do Congo, povos inimigos.
“Isauras, minhas filhas, a mim está
das zurumbevas, Passarinhos estrangeiros
cantando com tão grande voz. Oh! Que
vozes sutis! Oh! Que vozes sonoras!
castiçais e tens vencido inúmeras
batalhas. Vai vir!”
- Que legal, Carlinhos, quero ir lá na próxima festa do Congo.
- Tem mais, chega a hora dos cantos de guerra, cada qual com sua espada na mão. O grande ato, a seguir, é o resgate de São Benedito, e o fervor bélico termina: cada um, como que hipnotizado pela cantiga mágica permanece de cócoras. Com as armas desprotegidas.
- De repente o ritmo do tambor reanima os guerreiros e dita, novamente a dinâmica da encenação, a cantar e a dançar em homenagem do monarca Congo, vencedor da batalha. Cantam várias cantigas para o Rei, e este lhes devolvem as espadas. As letras dos cantos revelam sempre as situações cotidianas ou jogos políticos. Risadas se destampam entre a platéia.
“Tomarás, este bastão que faz você capitão”
- Acabada a guerra, os soldados se retiram e devem, agora, levar às suas casas todos os representantes da Festa de São Benedito.
“Sinhô Rei vamos embora,
Sinhô Rei, vamos embora
Sinhô Juiz mandou chamar!”
Sem intenção de se levantar”
- Os guerreiros só voltam aos seus lares ao final do dia, encerrando a festa com as rima:
“Se a rainha está sentada
Sem intenção de se levantar
Se a rainha está sentada
Com muita alegria
Acabou-se a festa
Acabou-se a festa
Com muita alegria
Viva Benedito Santo de hoje, neste dia
Viva Benedito Santo de hoje, neste dia”
- Marta, você e seu irmão Hélio Mário deveriam vir assistir esta festa, com um dos ritos mais belos de Mato Grosso, a memória que não pode ser esquecida. A memória se estende pelas lembranças longínquas. È reconhecido o papel dos santos católicos, que celebra a identidade que soube interferir em seu próprio destino.
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