Retirado de Overmundo
“Ô de casa, ô de fora, menina vem ver quem é
Ô menina vem ver quem é
São os ‘tirador’ de reis
Na barquinha de Noé
Ô na barquinha de Noé“.
Só quem já viu, ouviu ou participou de um Reisado sabe a delícia que é essa música. Assim como só sabe o que é um Baião Sapateado quem já viu ou dançou um. Não adianta tentar explicar porque qualquer explicação não vai chegar nem perto da belezura que é ver os ‘caretas’ chegando, as saias rodando, o povo cantando, o tocador batendo o pé.
Ruim é que essa mágica está se perdendo no tempo, como tantas outras manifestações culturais brasileiras. Começa a ser estilizada, a ser misturada e no futuro ninguém mais vai saber como foi que tudo começou.
Incomodado com isso, o sanfoneiro, tocador de pífano e professor de música Agenor Abreu botou na cabeça que ia fazer um registro das cantigas do folclore nordestino, em especial do Piauí. Há quase dez anos ele começou, junto com o professor Noé Mendes (in memorian), a visitar comunidades do interior onde as tradições ainda eram mantidas, por obra e graça dos mais velhos.
Procurou, conversou, ouviu histórias, aprendeu músicas, aprendeu danças e sentiu que tinha a missão de passar isso pra frente, revelar ao mundo o que restava de algumas das manifestações folclóricas e culturais mais bonitas do Brasil.
No povoado Cruzes, interior de Curralinhos, no interior do Piauí, Agenor encontrou Diolino, Louro Preto, Zefinha do Louro, Chico Honório, Macimino, Dona Sinêga, Luís Roque, Zé de Deus, Abdião das Cruzes, Zé Lázaro, João Princesa e Zé Teófilo, que contaram em detalhes e mostraram com cantos e danças como se fazia Reisado, Baião Sapateado, Pisa na Fulô, Roda de São Benedito e Roda de São Gonçalo. “Eles já eram bem velhinhos, mas era uma animação danada quando eu chegava com a sanfona. Queriam logo ir pro terreiro para dançar e fazer a cantoria. Só tenho a agradecer a generosidade com que me passaram toda a história, e me sinto privilegiado por ter conseguido os depoimentos porque todas essas pessoas já morreram nestes quase dez anos, desde que eu comecei a pesquisar”.
O professor conta que mesmo lá no interior do interior do interior as manifestações estão se perdendo. “Elas só são praticadas por pessoas idosas, e eles estão no fim da vida. Não percebem a importância de passar para as novas gerações até porque os mais jovens querem saber mesmo é de televisão, de dançar e cantar só o que aparece na televisão”, critica.
Cantoria-cassete-CD
As cantorias e histórias contadas em Cruzes, Olho d’Água de Dentro, Água Boa e outros povoados do interior do Piauí foram gravadas em fitas cassete. Quando voltava para casa, em Teresina, Agenor ouvia várias vezes até que aprendia a tocar e cantar. “Como eu sou músico há muito tempo e meu pai também era músico, eu cresci convivendo com isso e pego muita coisa ‘de ouvido’ mesmo. Eu fui colocando as músicas uma a uma em partituras e depois estudava, ensaiava, até que montei um grupo de forró pé-de-serra, chamado Forró de Candeeiro”, lembra.
Com um projeto completo debaixo do braço, o professor começou a peregrinação em busca de apoio para registrar o material. Com a morte do professor Noé Mendes, seu grande incentivador, as coisas ficaram mais difíceis.
De porta em porta, depois de muitos nãos e algumas promessas não cumpridas, chegou à Fundação Cultural Monsenhor Chaves e apresentou o trabalho ao professor José Reis, que de imediato ficou interessado. “Ele mandou eu gravar, eu disse que era caro ir para um estúdio, ele disse que dava um jeito, que ia atrás de parcerias, só que não achou quem quisesse ajudar e resolveu que a Fundação faria o trabalho sozinha mesmo”.
O resultado é o delicioso “Candeeiro no Folclore”, e é impossível não dançar. Junto com o CD vem um livreto que explica o que é, como se dança, qual o figurino e quais os personagens do Reisado, do Baião Sapateado, do Pisa na Fulô, da Roda de São Benedito e da Roda de São Gonçalo.
O CD está à venda na Escola de Música de Teresina, na Fundação Cultural Monsenhor Chaves e na Tocatta Discos, em Teresina. As músicas estão tocando direto na programação das rádios Cultura de Teresina, Pioneira e algumas FMs comunitárias da capital e do interior.
Dandiê dança
Além do Forró de Candeeiro, Agenor Abreu coordena junto com a filha Rejane o Dandiê, um grupo de dança formado por dezesseis crianças e adolescentes, especializado em danças folclóricas. Os meninos são seu grande orgulho e qualquer um percebe a emoção do professor ao contar a história dos dançarinos. “São meninos muito pobres, moram nos bairros Risoleta Neves, Água Mineral e Real Copagre (periferia de Teresina), pertencem a comunidades que tradicionalmente só aparecem na mídia nas páginas policiais. Com os meninos do Dandiê, essas comunidades estão ganhando auto-estima, estão se vendo mais valorizadas e respeitadas, já aparecem nos cadernos de cultura. Os pais vêem seus filhos dançando e ficam orgulhosos”, conta.
Quando o Dandiê se apresenta em alguma festa na zona norte de Teresina, uma verdadeira multidão segue o grupo, aplaude, incentiva. “Para os meninos, só estar dançando, ser bem tratados, bem recebidos em qualquer lugar já é uma vantagem. Eles ficam felizes com tão pouco! Com o ônibus que vai buscá-los em casa, com o lanche que ganham depois da apresentação e principalmente com os sorrisos e aplausos que recebem das pessoas. Ficam orgulhosos de ser recebidos com respeito em grandes eventos”.
O sucesso do grupo tem provocado uma reação nas crianças das comunidades envolvidas. Todas querem dançar, todas querem participar. “Infelizmente eu não tenho como ampliar o grupo porque não temos ajuda oficial, o Dandiê é da comunidade e todo mundo lá é carente. Com o dinheiro que eu apuro nos shows do Forró de Candeeiro é que eu providencio as roupas e calçados dos dançarinos”.
Os meninos e meninas do Dandiê aprenderam a valorizar as danças folclóricas e se mostram orgulhosos de poder divulgar essas manifestações. Cada um quer dançar mais bonito que o outro, cada menina quer rodar mais a sua saia. “Teve um caso engraçado uma vez. Temos uma coreografia chamada ‘Nêga Bonita’, e tem um momento em que todos sentam e a nêga bonita vai dar seu show. Foi uma confusão na hora de escolher quem faria a personagem, porque todas as meninas queriam. Eu expliquei que tinha que ser a mais negra, mas elas reclamaram”, diverte-se o professor.
O trabalho continua dando frutos. Um dos ex-alunos de Agenor montou um grupo de música e dança folclórica com colegas da escola e tem acompanhado o mestre em algumas apresentações. “O Fernando foi meu aluno, depois saiu do grupo, montou um de suingueira. Acho que viu que não era bem aquilo que ele buscava e voltou, disse que queria mesmo é continuar no caminho das manifestações folclóricas e montou o Culturarte. Tenho procurado levá-los comigo para que se tornem mais conhecidos, o trabalho deles é muito bom”, comenta Agenor, todo orgulhoso.
O trabalho dele também é motivo de orgulho para todos os piauienses.
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é bastante enteresante mas esta fautando umas coisas aq fala mais da historia do piaui