O Frevo, segundo Antonio Nóbrega


Retirado de Penochão

Para o compositor, dançarino e ator, o frevo, que completa simbolicamente 100 anos, este mês, deve ser valorizado não apenas como arte pernambucana, mas como patrimônio da cultura ocidental Por Alexandre Bandeira

Ele considera o frevo “a expressão mais bem-acabada do povo brasileiro em relação à dança” e faz elogios igualmente superlativos à música frevo. Mas antes que alguém levante a suspeita de bairrismo, três considerações a respeito: seu talento como bailarino e músico são incontestes; conhecimento de causa ele tem, porque viajou pelo Brasil inteiro estudando as mais diversas danças brasileiras; e, por último, a verdade é que o pernambucano Antonio Nóbrega nunca foi de vestir a camisa da pernambucanidade. Se ele diz o que diz do frevo, é bem provável que seja mesmo.
Pois bem. Quando Recife comemorar o Centenário do Frevo neste 9 de fevereiro de 2007, Nóbrega será um dos principais mestres de cerimônias. É justo, já que foi ele quem primeiro chamou a atenção para a data, ao batizar de Nove de Frevereiro um projeto que já rendeu dois CDs, um espetáculo de palco aclamado pela crítica de Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo, e que ainda vai emplacar um DVD. A data é simbólica, naturalmente, tirada do registro mais antigo da palavra frevo na imprensa, edição de 9 de fevereiro de 1907 do Jornal Pequeno do Recife. Mas a paixão do artista pelo gênero é bem real, ainda que tardia.

Nascido em 2 de maio de 1952, numa família de classe média recifense, Nóbrega não teve na infância ligação mais forte com o universo da cultura popular. Adquiriu cedo o gosto pela música, e chegou a improvisar um grupo com as irmãs, mas o repertório estava mais para Beatles e Jovem Guarda do que para qualquer coisa “da terra”. Um pouco mais velho, estudou canto lírico e violino clássico, tendo tocado nas orquestras de Câmara da Paraíba e Sinfônica do Recife. Foi na década de 70 que Ariano Suassuna o convidou para integrar o Quinteto Armorial, idealizado por Suassuna para traduzir em música o que ele já fazia em literatura e teatro. Ou seja: criar uma arte erudita inspirada na arte popular.

“Cheguei no frevo através do passo”, diz ele. Mais precisamente, através do Nascimento do Passo, nome artístico de Francisco do Nascimento Filho. No carnaval de 1972, Nóbrega conheceu o famoso passista, amazonense que tinha vindo ao Recife como clandestino num navio, ainda criança, sem pai nem mãe. Impressionado com a habilidade de Nascimento, quis tomar aulas de frevo com ele. “Eu conseguia seduzir os meus amigos para que eles também fizessem as aulas. Passados dois ou três meses não ficava um, era fogo de palha, mas aí eu já tinha um saldo com Nascimento para continuar as minhas aulas”, diz Nóbrega, que passou a freqüentar a casa do passista, no Ibura, durante o ano todo.

Corta para o ano de 2004. Multiartista reconhecido e premiado, estabelecido em São Paulo há mais de 20 anos, Nóbrega e sua mulher, Rosane de Almeida, iniciam o projeto Danças Brasileiras para o canal de TV Futura. A série de programas foi a oportunidade que ele teve de viajar pelo País estudando todo o repertório de danças que a cultura popular brasileira já produziu. Foi então que aquela paixão que ele sentia pelo frevo se transformou numa admiração de pesquisador, quase científica. Na comparação com qualquer outra dança popular brasileira, Nóbrega constatou que o frevo saía ganhando.

“Em nenhum lugar o povo produziu uma manifestação tão rica no que diz respeito ao vocabulário de passos, e o que é mais importante, batizados com nomenclatura. Porque em muitas de nossas danças, no próprio maracatu ou no caboclinho, a maioria dos passos são movimentos que estão ainda imersos numa espécie de caldeirão coletivo, que as pessoas aprendem inconscientemente sem precisar dar nomes. O frevo não, ele já foi sistematizado, já tem uma pedagogia”, diz ele.

Assim como fazia o Quinteto Armorial, Nóbrega se nutre dessas manifestações para criar… outra coisa. Apropriando-se de passos isolados do frevo como “vocábulos”, ele passa a escrever uma nova dança, que não depende mais do entorno específico para existir e que pode ser apresentada num palco em qualquer canto do mundo. “É isso que eu busco. Expandir esse vocabulário e plasmá-lo em trabalhos que não tenham mais uma ligação direta com o passista fazendo o frevo bem dançado, que possam até mesmo ser executados ao som de um gênero musical completamente diferente. Uma valsa, seja lá o que for. Outra coisa.”

Belo exemplo desse trabalho de transformação do frevo é quando, em certo momento do espetáculo criado para o projeto Nove de Frevereiro, Nóbrega apresenta ao público uma versão frevada de “Melodia Sentimental”, de Villa-Lobos. Registrado em vídeo por Walter Carvalho, o resultado ganhou destaque na primeira edição do Fantástico de 2007. No repertório dos dois CDs há também frevos tradicionais apresentados em novas formações orquestrais: violino com quinteto de metais, com conjunto de sax, com quarteto de cordas. “Com o frevo de Lourival Oliveira chamado “Brincando com clarineta”, convidei o Sujeito a Guincho, que é um conjunto de clarinetes de São Paulo para tocá-lo. E ele é completamente desconstruído, mas você continua encontrando lá os elementos do frevo. Aí você pensa: mas onde está o coração do frevo? Boa pergunta.”

Boa pergunta mesmo. Qual seria o denominador comum, a essência do frevo, esse gênero que musicalmente se apresenta em três variantes e que na dança tem um “vocabulário” de mais de 100 passos? Nóbrega oferece uma hipótese. “Tem uma coisa interessante. É algo que eu encontro historicamente na cultura brasileira em geral, mas que no frevo é muito importante: é uma espécie de abrandamento do espírito masculino para uma confraternização com o princípio feminino. Você veja que as primeiras bandas de frevo eram organizações militares. Ou seja: do masculino. Vinham tocando o dobrado, que é o parente mais próximo do frevo: tum-tum, tum-tum, tum-tum…” E, então, ele transforma a batida: “Tum-ta-ca-chi-ca-tum-ca-chi-ca-tum… O frevo é uma espécie de feminização do dobrado”.

“Com a dança é a mesma coisa”, continua. “É uma pena que seu gravador não vá registrar isso…” Levantando-se da cadeira, passa a demonstrar um movimento da capoeira – a principal matriz do frevo. Começa jogando o corpo para um lado e para o outro, os braços dobrados em posição de defesa, os punhos cerrados, até que as mãos se abrem num desmunhecar, e o sorriso aparece na cara antes belicosa. “É como o dançarino de flamenco: aquele torso que vai para a frente (duro como o de um toureiro), enquanto as mãos… (ágeis, simulando o tocar das castanholas). Tenho para mim que esse confronto, esse diálogo intenso entre esses dois princípios, é o que dá riqueza, verdade a uma manifestação cultural.”

Se para a dança-frevo Nóbrega é só elogios, a música também tem méritos próprios que a coloca entre as mais importantes criações brasileiras. Ele aponta a existência de introduções instrumentais em certos frevos-de-bloco e frevos-canção que, devido à complexidade e beleza, são tão importantes quanto a própria letra. Mas, no final, música e dança no frevo são uma só. É um caso raro em que os movimentos nasceram tão conjuminados com a música, de modo que não se sabe quem acelerou primeiro o ritmo, os capoeiras ou a banda. É a esse conjunto que Nóbrega dedicou três anos de trabalho, não como um pernambucano vestindo a camisa por puro regionalismo, mas como artista original e universal.

Mário de Andrade certa vez afirmou: “A vibração paroxística do frevo é realmente uma coisa assombrosa. É, enfim, um verdadeiro allegro num presto nacional! É, sem dúvida, o entusiasmo, a ardência orgíaca mais dionisíaca da nossa música nacional. Mas será possível que uma coreografia assim ainda se conserve ignorada dos nossos teatros e bailarinos? É uma fonte riquíssima. É um verdadeiro título de glória que o país ignora, simplesmente porque entre nós são muito raros os que têm verdadeira convicção de cultura.” Com Nóbrega e seu Nove de Frevereiro, o Brasil já não ignora mais nada de frevo.

(Leia a matéria na íntegra, na edição nº 74 da Revista Continente Multicultural.)

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Um comentário em “O Frevo, segundo Antonio Nóbrega

  1. A palavra frevo vem de ferver, por corruptela, frever, que passou a designar: efervescência, agitação, confusão, rebuliço; apertão nas reuniões de grande massa popular no seu vai-e-vem em direções opostas, como o Carnaval, de acordo com o Vocabulário Pernambucano, de Pereira da Costa.[6]

    Divulgando o que a boca anônima do povo já espalhava, o Jornal Pequeno, vespertino do Recife que mantinha uma detalhada seção carnavalesca da época, assinada pelo jornalista “Oswaldo Oliveira”, na edição de 9 de fevereiro de 1907, fez a primeira referência ao ritmo, na reportagem sobre o ensaio do clube Empalhadores do Feitosa, do bairro do Hipódromo, que apresentava, entre outras músicas, uma denominada O frevo. [7] E, em reconhecimento à importância do ritmo e a sua data de origem, em 9 de fevereiro de 2007, a Prefeitura do Recife comemorou os cem anos do Frevo durante o carnaval

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