Alfabeto Sertanejo


Retirado de Barcelona RN

Alfabeto sertanejo

A logomarca do portal virtual formada pelo nome “Barcelona”, presente na página inicial do site, usa uma tipografia baseada em ferros de marcar boi – desenvolvida por Ariano Suassuna. A pecuária sempre foi uma atividade fundamental no sertão nordestino.

Marcar a ferro quente no corpo do boi um signo de seu dono é uma prática de mais de 4.000 anos e de quase 500 no Brasil. Interessado nas raízes da cultura nordestina, o escritor Ariano Suassuna estudou a fundo e identificou formas recorrentes em antigas marcas de ferro do sertão do Cariri, a sua região de origem. Com base na observação detalhada dos ferros do Cariri, Ariano Suassuna criou à mão um alfabeto.

Precursoras dos modernos logotipos com que as corporações se identificam junto ao público, as marcas queimadas sobre o couro do gado são o mais primitivo sinal de propriedade e há muito mexem com o imaginário dos artistas. Há registros de ferros em gravuras do Egito antigo e em versos dos poetas grego Anaximandro e romano Virgílio.

Será que é mesmo diferente? Marcar a ferro escravos e criminosos não foi prática restrita apenas aos antigos romanos, gregos e egípcios. Mesmo no Brasil ela ocorreu. ‘Tá ferrado’, expressão da gíria que remete a essa prática, pode se tornar uma realidade também para os homens livres, na fantasia recorrente de alguns artistas, que imaginam uma vingança dos animais. Na nova versão do filme ‘Planeta dos Macacos’, são os símios que ferram os humanos com uma marca na forma de tridente. A prática de ferrar gado chegou ao Brasil via Península Ibérica. Os primeiros gados foram desembarcados em São Vicente em 1534, ‘importados’ por Ana Pimentel, mulher de Martin Afonso de Sousa. As primeiras marcas foram registradas no Rio Grande do Sul ainda no século XVI. Em ‘Kadiwéu’, o antropólogo Darcy Ribeiro reproduz os desenhos dos ferros com que esses índios do Mato Grosso marcavam seu gado. Ele observou que algumas de suas marcas antigas ‘foram simplificadas (ou substituídas por letras), para ocupar menos espaço, preservando o valor comercial do couro, mas ainda conservam seu estilo geométrico de linhas puras’.

De início, as marcas eram feitas em grandes festas, ‘atraindo cantadores, valentões, os melhores vaqueiros para alguns dias de vida intensa e fraternal’, na descrição do folclorista Luís da Câmara Cascudo. Quem presenciou uma cena dessas diz que não se esquece jamais do movimento dos vaqueiros e do cheiro do couro queimado. Indelével não é só a marca, mas também a memória visual e olfativa de quem a assistiu.

Foi o que aconteceu com o escritor Ariano Suassuna. Ele conta que sua ligação com os ferros sertanejos de marcar gado começou a se sedimentar em seu subconsciente ‘desde muito menino, como, aliás, sucedeu comigo em tudo o que se relaciona com a civilização do couro’. O dramaturgo diz que não considera a ferra de gado ‘tão dramática e cruel como parece à primeira vista’, por atingir apenas a superfície do couro do animal. É uma cena, de resto, incorporada ao cotidiano das fazendas, afirma.

Em seu livro Ferros do Cariri — Uma Heráldica Sertaneja (1974, Editora Guariba, esgotado), Ariano conta que sua curiosidade intelectual pelo tema despertou ao ler em 1943 um livro do cearense Gustavo Barroso, em que ele analisava as marcas familiares e as diferenças acrescentadas por cada descendente como elementos de uma verdadeira heráldica. Ao interesse antropológico e sociológico das marcas, aos poucos Ariano passou a vê-las como ‘assunto artístico’.

A partir de um registro de vários ferros familiares feitos por seu antepassado Paulino Villar, fazendeiro do século XIX, Ariano estudou a fundo as formas que encontrou e as relacionou com a simbologia antiga. Segundo ele, o traço vertical, chamado tronco, representa o céu; o horizontal, ou puxete, significa terra. Os dois juntos podem formar o galho, a união imperfeita entre o divino e o ser humano. Ou ainda a cruz, a união perfeita entre ambos. Há signos para o macho, a fêmea e para a fusão sexual.

O escritor viu semelhanças entre ‘as formas meio hieroglíficas dos ferros sertanejos mais abstratos’ com alguns dos signos ligados à astrologia, ao zodíaco e à alquimia, e acha que alguns dos primeiros fazendeiros podem ter escolhido para seus ferros os símbolos astrológicos de seus signos e planetas pessoais. Os desenhos dos ferros familiares vão se alterando no decorrer das gerações. Cada filho que começa a criar gado vai acrescentando sobre a base imutável do ferro familiar, chamada mesa, as suas diferenças, chamadas divisas, que podem ser um risco para um dos lados, uma meia lua, um pé de galinha, etc. Em geral, o filho mais novo fica com a marca igual à do pai quando este morre. O pai de Ariano, último filho, tinha o mesmo ferro de seu avô e de seu bisavô. O escritor guarda como ‘objetos sagrados’ os ferros com os quais seu pai marcava pessoalmente seu gado nas fazendas Acauhan e Malhada da Onça.

Se a prática da ferra ainda persiste em lugares onde se cria o gado solto no pasto — no Brasil, especialmente no Nordeste e no Rio Grande do Sul — cada vez há mais gente interessada em partir dessas referências visuais para fazer criações contemporâneas. A marca do artista pernambucano Francisco Brennand é um tipo de brasão de ferro.

Prática ancestral e rudimentar, a marca de ferro de certa forma é recriada também nas tatuagens dos jovens das grandes cidades. Muitos deles estampam na pele o nome de seu namorado(a), ou ‘proprietário(a)’ . Se as relações amorosas ou as convicções hoje costumam ser fugazes, pelo menos na pele elas sobrevivem. Há quem reproduza marcas familiares em objetos pessoais. Usam, por exemplo, a marca de ferrar que eram de seus antepassados como um timbre aplicado em suas cartas e textos.

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