BATALHA DOS GUARARAPES – Os poetas no campo de batalha


Retirado de Jornal do Commercio Online

BATALHA DOS GUARARAPES
Os poetas no campo de batalha

por MÁRIO HÉLIO

“Não faço versos de guerra, não faço porque não sei”. As frases do poeta Manuel Bandeira, que faria 112 anos, amanhã, dia em que se comemoram os 350 anos da primeira Batalha dos Guararapes, parecem ser seguidas também por quase todos os autores brasileiros. Pouquíssimos têm interesse épico. Daí a escassez de poemas sobre episódios históricos os mais relevantes, na origem do próprio nacionalismo do país. Contam-se nos dedos os que se ocuparam de fazer poesia coma Batalha dos Guararapes, que, além de nomear uma cidade inteira, batiza também o aeroporto do Recife e uma de suas avenidas centrais.

Na prosa de ficção, o tema praticamente inexiste. Sobram os estudos históricos, que incluem a própria etimologia de Guararapes, esclarecida por Alfredo de Carvalho citando Fernandes da Gama: “Gararapes (sic) significa no idioma dos nossos índios estrondo; e o ruído, que as águas das chuvas fazem, quando se despenham por esses montes, assemelhando-se ao estrondo, que faz uma catarata, quando as águas se precipitam, induziu os índios a dar-lhe este nome”, e, recorrendo a Teodoro Sampaio, acrescenta: “Guararapes é simples corruptela de Guarará-pe e se traduz – nos tambores.”

O primeiro nome importante a ser lembrado entre os poetas que cantaram a Restauração Pernambucana é o de Natividade Saldanha, revolucionário de 1824. Ele escreveu diversas odes heróicas, para André Vidal de Negreiros, Francisco Rabelo, Henrique Dias, Filipe Camarão. “Porém, ó musa bela, o carro volta/ Aos altos Guararapes/ Neles procura o forte brasileiro/ Tigre sedento, lobo carniceiro,/ Que dardejando a espada em dura guerra/ Faz tremer ao seu nome o mar e a terra”: uma estrofe da ode pindárica dedicada a Antonio Filipe Camarão.

EM VERSOS – Da atualidade,podem ser citados quatro poetas pernambucanos que se ocuparam de cantar os feitos nos montes Guararapes: César Leal, Vital Corrêa de Araújo e Marcos Cordeiro. Todos com a singularidade de ligarem versos e pintura. Do último porque, além de poeta, é pintor reconhecido, tiram-se os textos do Romançal Paranambuco (adaptado pelo próprio autor para o teatro). Araújo escreveu o seu Gesta Pernambucana para “ilustrar” alguns trabalhos de um álbum de gravura da pintora e escritora Ladjane Bandeira. O caso de César Leal, que tem versos num longo painel na rua das Flores, no centro do Recife, juntamente com Ariano Suassuna, é semelhante: em 1961, foi encomendado ao pintor Francisco Brennand um painel sobre Guararapes, e o artista, por sua vez, encomendou os poemas. “Fiz o poema antes do painel de Brennand ficar pronto. Publiquei no Diario de Pernambuco, e ele se entusiasmou com os versos”, conta Leal.

A história completa do mural está contada por Weydson Barros Leal, no ensaio biográfico que escreveu para o livro Francisco Brennand (Sebrae, 1998). “Durante a execução, houve algumas semanas de paralisação devido à conturbada renúncia de Jânio Quadros. Na volta ao trabalho, o artista decidiu incluir as figuras do ex-presidente e do amigo Ariano Suassuna como comandantes que lutavam pela soberania nacional. Numa outra analogia histórica surgia, empunhada pelos combatentes, a imagem da bandeira brasileira atual, numa clara indicação de que aquela batalha era moderna, contemporânea e viva, e que agora éramos invadidos de outras maneiras”, explica Barros Leal.

César Leal conta que o poema para Francisco Barreto de Menezes, e outros que lutaram contra os holandeses (todos incluídos no seu livro Os Heróis, ilustrado por Brennand) causou protestos de políticos de direita (Leal e Brennand foram auxiliares do governador Miguel Arraes no seu primeiro governo). “Implicaram sobretudo com o texto que fiz sobre André Vidal de Negreiros, em que digo, na primeira estrofe: A Guerra tem suas leis e eu as cumpri/ com a força de quem sabe o que convêm,/ por isso, perdoai, nobres Senhores/ se em fogo eu cobri tantos Engenhos.”

O texto de César Leal sobre os Guararapes é o que se pode chamar de poema interativo. Escreveu-o como alguns epitáfios gregos, que são mensagens dirigidas do herói ao seu leitor: “Saudação do Comandante de Campo Barreto de Menezes: “- Bom dia, pernambucanos!/ Com vocês estou aqui neste mural./ ” – Que fizestes para tanto merecê-lo?”/ Dirão os que de estranha Pátria são/ mas não vocês/ cujos avós comigo edificaram/ – a fogo e faca e patas de cavalo -/ o orgulho da Pátria em Guararapes!”

“COISA DE SUBVERSIVO” – “Fiz vários poemas para os heróis pernambucanos, não sou dado a essas homenagens, mas acho a batalha dos Guararapes bonita, e um homem como João Fernandes Vieira demonstrou uma coragem estupenda”, afirma Leal. “O curioso é que talvez esses textos em que exalto os heróis pernambucanos tenham causado raiva nas pessoas, que consideravam os versos coisa de subversivo, preferiam os versos de Mauro Mota, muito mais amenos, sobre o assunto”.

O poeta e pintor Marcos Cordeiro preferiu a fôrma popular do mourão: “Em Pernambuco a Holanda/ tudo transforma em dinheiro./ – Vai açúcar e vai madeira/ pelos navios cargueiros./ – Para as cortes européias/ levam ouro e as batéias/ da terra dos altos coqueiros.// (…) Livre está Tejucupapo,/ Itamaracá e o Pontal./ – Cai o Forte de Altenar,/ a guerra é já crucial./ – Dos Guararapes a Holanda/ de Pernambuco se manda/ em derrota colossal.”

O caso de Vital Corrêa de Araújo é de um poeta que resolveu “legendar” gravuras, recriando sua idéia plástica numa descrição ou narração. A sua Gesta Pernambucana é em grande parte baseada no álbum de gravuras de Ladjane Bandeira sobre a Restauração Pernambucana. No livro há um poema especificamente sobre a primeira batalha dos Guararapes: “Eles buscam/ com o aval da própria vida/ nas grimpas/ dos Montes Guararapes/ a estrepitosa e dura/ vitória da raça/ batismo sangrento/ parto de um povo/ valoroso lucideno.”

No comentário que escreveu a respeito das gravuras de Ladjane Bandeira, o historiador José Antonio Gonsalves de Mello, faz uma síntese das principais imagens do Brasil holandês, a partir dos contemporâneos da dominação e das batalhas. Fernandes Vieira teria mandado pintar dois grandes painéis sobre a batalha dos Guararapes e outras, como a das Tabocas e da casa-forte de D. Ana Pais, na Várzea. “No século XVIII os feitos de armas não foram esquecidos. Conhecem-se dos primeiros anos desse século (1709) três painéis mandados pintar pelos vereadores da Câmara de Olinda, representando cada uma das batalhas maiores da guerra contra holandeses (conservados no Museu do Estado)”, escreve o historiador.

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