O gurufim de Jamelão


O texto abaixo foi retirado de O Globo Online

O gurufim de Jamelão

Publicada em 18/06/2008 às 15h57m
por Eloy dos Santos

O Brasil lamentou a morte, no dia 15, sábado, de José Bispo Clementino dos Santos, o notável cantor Jamelão, que encantou com sua voz grave seis gerações de brasileiros. Ele era “a voz negra do Brasil, não tem substituto”, no dizer de Beth Carvalho. Desde 1949 a Mangueira se orgulhava de ter Jamelão como o seu cantor oficial. “Cantor mesmo!”, exclamava ele, “não um puxador de samba”. Mas o bamba do Sambódromo foi muito mais: Lupicínio Rodrigues o escolheu como intérprete de seus inesquecíveis sambas-dor-de-cotovelo e excursionou pela Europa com a banda do músico e maestro americano Tommy Dorsey, o mesmo que teve Elvis Presley e Frank Sinatra como crooners.

Sepultado no domingo, no Cemitério do Caju, o corpo de Jamelão foi velado na quadra da Mangueira. E com direito a um gurufim de primeira.

Gurufim? Isso mesmo! Um concorrido velório, com comes e bebes. Mais bebes do que comes! Na edição do dia 15, O GLOBO publicou em sua página 24 matéria com o título “Velório com música, palmas e batuque”. No texto uma breve descrição: “enquanto esperavam o início do velório, alguns dos presentes, entre eles Zeca Pagodinho, bebiam e cantavam obras que se tornaram famosas na voz de Jamelão.” A velha guarda das inúmeras escolas de samba fartou-se de bebidas, enquanto reverenciava a memória e encomendava o corpo do ilustre companheiro desaparecido.

” O gurufim é uma herança de escravos bantos, vindos da África Ocidental e Central “

Anos antes, as matriarcas da Mangueira, Dona Neuma e Dona Zica, a primeira falecida em 2000, a segunda em 2003, disseram aos familiares, quando estavam enfermas, que não abriam mão de gurufins bem alegres e festivos, antes de seguirem para a última morada.

O escritor e folclorista Edison Carneiro, nome de museu no Rio de Janeiro, dedicou um espaço à história do gurufim em sua obra “Trabalhos fúnebres populares”. Escreveu ele: (…) nas favelas da Guanabara (atual Estado do Rio) e de São Paulo a guarda do morto inclui a brincadeira do gurufim, talvez corruptela de golfinho, que Luís da Câmara Cascudo relaciona ao delfim mediterrâneo que levava as almas dos mortos por mar para o outro mundo. Lá pela meia-noite alguém começa: “gurufim já não está aqui…/ gurufim foi pro alto-mar…” Os circunstantes respondem em coro: “foi pro alto-mar…” Cada pessoa representa um peixe e, quando nomeada, responde, indicando outra: “gurufim tá com fome…/ gurufim não come!/ quem come então?/ quem come é tubarão!/ tubarão não come!/ quem come então?” E assim, com intervalos de rodadas de pinga e café, os favelados cariocas e paulistas distraem o velório de amigos e conhecidos.”

O gurufim é uma herança de escravos bantos, vindos da África Ocidental e Central, como os angolas. Gurufins históricos foram os de Paulo Benjamim de Oliveira, o Paulo da Portela, fundador da grande escola de samba de Madureira, morto no dia 31 de janeiro de 1949, do compositor do Império Serrano, Silas de Oliveira, em 20 de maio de 1972, do cantor João Nogueira, em 5 de junho de 2000, do ator, escritor, cantor e compositor Mário Lago, autor do imortal “Ai, que saudade da Amélia”, em parceria com Ataulfo Alves, em 30 de maio de 2002. Mário foi honrado com a presença de amigos e admiradores reunidos num gurufim no saguão do Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes, onde não faltaram cerveja, muito falatório, recordação e uma movimentada roda de samba.

O cantor e compositor Wilson das Neves, um velho e assíduo freqüentador de gurufins, garantiu que a tradição “é uma festa de despedida para a alma do morto seguir feliz até o céu. Velório para os pobres se chama gurufim. E gurufim de verdade sempre acaba em samba.” O historiador Marcelo Monteiro escreveu: “essa mistura de sagrado com profano até hoje é lembrada com saudade pelos mais velhos”. Na tradição cultural-religiosa africana no Brasil e nas terras onde houve a escravidão, essa mistura se dá em outros cultos, como o tambor-de-mina e o tambor-de-crioula, do Maranhão. Depois das celebrações religiosas no tambor-de-mina, os praticantes pedem licença aos santos e se tornam brincantes no tambor-de-crioula.

Valdir Claudino, figura legendária da Mangueira, disse que nos velórios do Buraco Quente havia até fogos de artifício. “A família do morto esperava o benzedor ir embora para servir cachaça aos convidados” – declarou ele para Marcelo Monteiro. “Aí o gurufim virava festa! Tinha jogo de sueca, dominó e roda de samba. E ninguém podia reclamar porque já fazia parte da tradição. Gurufim não era exclusividade só do pessoal do samba. Todo mundo gostava, até as famílias mais tradicionais.”

Martinho da Vila é autor do samba “Gurufim do Cabana”, uma homenagem a Silvestre David dos Santos, o Cabana, compositor de primeira em Nilópolis, na Baixada Fluminense. Cabana entrou para a história do samba, entre outros méritos, por associar o então Bloco Associação Carnavalesca Beija-Flor à Confederação das Escolas de Samba, como escola de samba, para o desfile oficial de 1954. O “Gurufim do Cabana” diz assim: “a tradição africana manda a gente/ cantar de qualquer maneira, e quando o Cabana subiu, o gurufim dele/ foi na quadra da sua escola de samba,/ a Beija-Flor de Nilópolis./ Lá pelas tantas, começamos a cantarolar/ as músicas do grande compositor.”

Na letra, Martinho da Vila emendou trecho de antiga música de Cabana: “todo mundo já sabia/ que ela me traia/ só eu não/ (…) “ela andava com Pedro/ transava com Zé/ Chico, Mané e João/ era uma covardia/ todo mundo sabia/ só eu não.” E segue a parceria Martinho da Vila com o finado Cabana: ” este samba foi cantado muitas e/ muitas vezes, até que o Anízio/ pediu e eu mudei/ garçom/ ponha a bebida na mesa/ eu pago toda a despesa/ não cobre nada a ninguém/ e depois/ peça licença ao patrão/ e abandone o balcão/ venha beber também/ estou festejando um grande dia/ de felicidade para mim” (…) E Martinho da Vila arremata o samba em homenagem a Cabana: “e o gurufim seguiu animado/ por toda a madrugada”.

Em “Para viver um grande amor”, onde se mesclam poemas e crônicas, o poeta maior Vinícius de Moraes conta, com seu incomparável estilo, uma pequena história de gurufim. Ela ocorreu com um tio do poeta, que subia, à noite, a rua Lopes Quintas, no bairro do Jardim Botânico, no Rio. De um dos casebres que a avó de Vinícius permitia em seus terrenos, vinha o som de um cavaco, que “cavucava em cima de um samba de breque”. O tio resolveu dar uma estirada até a casa. Lá, uma humilde família, na luz mortiça da sala, velava o corpo de um menino, um anjinho, como Vinícius descreveu. Num quartinho, o tio do poeta encontrou o pai do defuntinho, com o cavaquinho na mão. “Pois é, velhinho. Veja só… O meu caçula…”

Vinícius de Moraes segue com a narrativa: “conta meu tio que, depois de uma introdução, dentro das regras, o rapaz entrou com um samba de breque que, cantando em voz respeitosamente baixa e ainda úmida de choro, dizia mais ou menos o seguinte:

Tava feliz

Tinha vindo do trabalho

E ainda tinha tomado

Uma privação de sentidos no boteco do lado

Que bom que estava o carteado…

O dia ganho

E mais um extra para a família

Resolvi ir para a casa

E gozar

A paz no lar

– Não há maior maravilha!

Mal abro a porta

***

Dou com uma mesa na sala

A minha mulher sem fala

E no ambiente flores mil

E sobre a mesa

Todo vestido de anjinho

O Manduca meu filhinho

Tinha esticado o pernil.”

Horrorizado e comovido – diz Vinícius – o tio viu o homem “rasgar o breque do samba em palhetadas duras:

– O meu filho

Já durinho

Geladinho… “

***

O grande cantor e compositor Arlindo Cruz, por sua vez, cantou o próprio gurufim. É isso mesmo! No samba “Meu Gurufim” em parceria com Lino Roberto e Dominguinho do Bafo da Onça, Arlindo Cruz canta: “eu vou fingir que morri/ pra ver quem vai chorar por mim/ e quem vai ficar gargalhando no meu gurufim./ Quem vai beber minha cachaça/ e tomar do meu café/ e quem vai ficar paquerando a minha mulher./ Quando o caixão chegar/ eu me levanto da mesa/ e vou logo apagar/ as quatro velas acesas/ e vou dizer pra minha mãe/ não chora/ amigo a gente vê é nessa hora.”

Antes de morrer, Mário Lago disse: “eu fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo. Nem ele me persegue, nem eu fujo dele. Um dia a gente se encontra.”

Mário Lago e o tempo se encontraram.

Num gurufim.

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