Música sagrada para um novo milênio


Retirado de JCOnline

Música sagrada para um novo milênio

por Marcos Toledo

Às vésperas de completar três décadas de existência, a chamada música armorial continua a se desenvolver em Pernambuco, e trilha novos caminhos. Herdeiro do Quinteto Armorial (fundado em 1971), o Quarteto Romançal segue os conceitos do antecessor ilustre, estabelece preceitos musicais a partir de novas pesquisas, consolidando cada vez mais o projeto de uma música clássica fundamentada nas raízes musicais nordestinas. O resultado pode ser conferido de perto pelo público, a partir da próxima quinta-feira, no Teatro Apolo, onde acontece o espetáculo de lançamento do CD No Reino da Ave dos Três Punhais (Ancestral, R$ 15). O evento marca também a apresentação da nova formação do Quarteto.

Para entender o trabalho atual do Quarteto Romançal, faz-se necessário voltar aos primórdios da música armorial, quando o maestro Antonio ‘Zoca’ Madureira criou o Quinteto Armorial. A formação contava com instrumentos utilizados ainda hoje, como o violão, flautas, violino e rabeca, mas incluía a viola sertaneja e o rústico marimbau – instrumento formado por duas latas sobre uma tábua e um arame tensionado.

Com tais elementos, colocou-se em prática a idéia básica do projeto: aos músicos, de formação erudita, cabia aprender a fundo a música popular mais antiga, ligadas às raízes tradicionais, e repassar a linguagem para o público. “Ao mesmo em que divulgávamos a música popular da região, criávamos uma música erudita nordestina”, recorda Zoca. “Não havia a preocupação de repetição da música autêntica”, ressalta o maestro. “O importante era aprender a linguagem e transformá-la em uma nova música para as pessoas”. Esses fundamentos atravessaram décadas. O Quinteto durou exatos 10 anos, período no qual lançou quatro LPs, todos reeditados em CD e procurados até hoje, de acordo com o fundador.

UNIVERSAL – O Quarteto Romançal aparece apenas em 1997, na era da globalização, com o objetivo de se aprofundar na proposta armorial, e tornar universais as novas peças musicais. O primeiro passo foi dar uma feição mais erudita ao grupo. Saíram a viola e o marimbau; entrou o violoncelo. Os temas idealizados poderiam ser interpretados por quaisquer músicos em qualquer parte do mundo, e isso foi tido como um primeiro amadurecimento da concepção original.

Em março daquele mesmo ano, Antonio Madureira (violão), Sérgio Campelo (flautas), Agláia Costa (violino e rabeca) e João Carlos Araújo (cello) seguiram para Oslo, Noruega, para gravar o primeiro álbum, Romançal. O disco, lançado no Brasil pelo selo de Zoca, o Ancestral, é bastante eclético. Faz releituras da obra do Quinteto Armorial, e mostra a influência apreendida com as pesquisas dos integrantes sobre as músicas tradicionais nordestinas, como os temas do século passado feitos para retreta, repentes, elementos ibéricos (caso da Nau), a herança medieval (Romaria) e até moura. “Era mais ou menos um ‘leque’ que se abria, mostrando os caminhos que o Romançal poderia percorrer”, explica Zoca.

“O segundo álbum tem uma temática central voltada para a música sagrada dos povos nordestinos, criando alegoricamente o sincretismo religioso que seria a ‘Ave dos Três Punhais’”, define o maestro. “Ela é a inspiração do trabalho”.

No Reino da Ave dos Três Punhais é uma referência direta a uma gravura do artista Gilvan Samico, maior representante das artes plásticas no gênero armorial. A obra de Samico que ilustra o encarte representa o Brasil (o Reino), Nossa Senhora (a Ave) e a tríade Pai, Filho e Espírito Santo (os Três Punhais) – um conjunto que bem se harmoniza com as peças executadas pelo Romançal, que recriam a celebração sacra de índios, negros, portugueses e de uma alma sincrética possível entre os herdeiros desta nação.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s