Entrevista com J. Borges


Retirado de UOL Esporte Futebol

Repórter de 2ª na 3ª: Finalmente,  J. Borges
José Roberto Torero
Em Caruaru (PE)

Na terceira tentativa, finalmente consegui falar com o homem. Mesmo assim, ele se atrasou, pois tinha ido comer sua carne de bode matinal.

Mas a espera valeu a pena. J. Borges é um entrevistado alegre, de riso fácil, e um tremendo contador de histórias.

Ele chegou andando com certa dificuldade, apoiado numa bengala, e com a camisa do Náutico.

Nosso mais famoso cordelista é alvirrubro desde menino. Mas não sabe explicar por quê.

“Como é que eu vou saber? A gente se apaixona por qualquer coisa. Até pelo bico do nariz de uma mulher.”

Em São Paulo é Palmeiras, e no Rio, Vasco. Por conta disso torce contra Corinthians, Flamengo e Sport.

Na final da Copa do Brasil, entre Corinthians e Sport, ficou na dúvida em para quem torcer. “Odeio o Sport que nem o diabo, mas acabei torcendo para ele por causa de Pernambuco.”

Apesar de gostar muito de futebol, só viu dois jogos ao vivo até hoje. E os dois terminaram em 0 a 0.

Mas, seja pelo rádio ou pela tevê, o futebol já lhe deu muitas alegrias Em 2002, num mesmo dia, viu o Náutico ser campeão pernambucano e o Brasil ganhar a Copa. “Naquele dia bebi demais. Tiveram que me trazer para casa de cadeirinha.”

J. Borges nasceu e vive em Bezerros (30 km ao leste de Caruaru), em 1935. Naquele tempo ninguém tinha televisão ou rádio, então o cordel era sua maior diversão.

“Onde eu era criança, o cordel era lido nas bocas de noite. Chamavam para casa de um, matavam uma galinha e alguém lia em voz alta. Tinha que ser em voz alta porque naquele tempo ninguém sabia ler. No sítio que eu morava tinha quinhentas pessoas e só três iam. Meu pai, meu tio e mais um.”

Quando não tinha leitura coletiva, ele matava a sede de histórias em casa: “Toda noite eu pedia para o pai ler, e ele lia um cordel ou dois.”

Ficou apenas dez meses na escola. E tinha um objetivo claro. “Aprendi a ler só para ler cordel.”

J.Borges trabalhou na enxada até que um amigo, vendedor de cordel, deixou um maço de folhetos em sua casa. “Peguei e vendi. Depois comprei uma maleta cheia de cordel e fui para Recife. Fiquei 20 anos nisso.”

Logo que começou a vender cordéis, escreveu um sobre uma vaquejada, em que um vaqueiro do sul duelava com um vaqueiro do norte pela mão da filha do fazendeiro. “Escrevi mas não mostrei para ninguém.”

Um dia, um amigo leu sua história e disse que era melhor que muitos que tinham por aí. J.Borges decidiu imprimir sua história. A capa foi feita graças à reutilização de uma xilogravura que já tinha sido usada por outro. “Vendeu dois milheiros rapidinho.”

Para o segundo cordel não tinha como fazer a capa, então ele mesmo acabou fazendo a ilustração. Os amigos gostaram e começaram a fazer encomendas. Começava uma carreira que o levaria a países como Suíça, França, Estados Unidos, Portugal, Cuba, Portugal, Chile e Alemanha.

Cobrava 5 cruzeiros por capa. Hoje, para empresas, cobra 400 ou 500 reais. Mas para cordelistas, deixa por 50.

O salto em sua carreira foi dado nos anos 70. Um grupo de pintores em Olinda gostou de seu trabalho e mostrou-o a Ariano Suassuna, que disse: “Onde vocês arrumaram essa fera?”

Ariano pediu para conhecê-lo. E quis que o mundo também o conhecesse. Chamou a tevê Globo e quatro jornais para entrevistar J.Borges. Foi a saída do anonimato. “Na mesma semana começou a bater gente na minha porta. As mulheres do Rio chegavam com aquele espalhafato e compravam cinco, seis gravuras.”

Eram os anos da ditadura, e no começo ele teve medo de que algum de seus trabalhos fosse mandado para Brasília e ele fosse tido como subversivo. Mas depois um crítico de arte disse que ele era um grande artista popular e J.Borges ficou mais tranquilo. “Ah, é aí que eu me encaixo. Então não sou subversivo.” Mas os desenhos que fez para a abertura da primeira versão da novela Roque Santeiro acabaram censurados junto com a novela.

J. Borges já escreveu 251 cordéis. “A chegada da prostituta no céu” é seu best-seller. Vendeu mais de 100 mil exemplares.

“Vivo de contar mentiras”, ele diz. E teoriza que a mentira dura muito mais que a verdade: “O cordel da morte de Getúlio Vargas vendeu muito na primeira semana, só que depois ninguém mais quis. Mas o Pavão Misterioso tem mais de cem anos e vende até hoje. O pessoal gosta é de mentira.”

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