Entrevista com Gilvan Samico


Retirado do Blogue A Ilharga da Geógrafa

ENTREVISTA / Gilvan Samico

O mestre do talho firme e armorial

Às vésperas de inaugurar a maior exposição de sua vida, comemorativa dos seus 40 anos de gravura, o artista plástico Gilvan Samico ainda se comporta como se essa fosse uma de suas primeiras mostras. Um pouco tenso e ansioso, mas refinadamente bem humorado, ele deixa escapar que esse é um dos momentos mais importantes de sua carreira, uma grande exposição “em casa”. Quem o escuta falar, não vai imaginar que Samico já expôs em 14 países e tem vários prêmios no currículo. Ele é um dos poucos artistas plásticos – e dos raros gravuristas – de quem se pode dizer sem medo de errar: um dos maiores do Brasil.

Entre esses maiores, com a sua grandeza, talvez não figurem mais que dez. Mesmo assim, foi em tom de modéstia que ele concedeu essa entrevista à repórter Diana Moura Barbosa.

JORNAL DO COMMERCIO – Você é conhecido como sendo muito reservado, avesso às entrevistas. Por que esse receio?

GILVAN SAMICO – Não é que eu não goste de dar entrevistas, é que não sei falar sobre meu trabalho. Sou um artista do olhar e não da fala. Mas tenho melhorado com o tempo. Hoje, só peço para colocarem aquele olho longe de mim (referindo-se à
camera).

JC – Antes de vir a Pernambuco, essa exposição foi apresentada no Rio de Janeiro. Há diferença entre as mostras?

SAMICO – Nunca tive uma exposição tão bem feita e estruturada em toda a minha vida. Mas eu acho que eu merecia (risos), porque é uma data especial, são os 40 anos de minha arte. A única diferença entre as duas é que nessa tem a gravura do ano
passado e um número maior de pinturas.

JC – Essa está melhor?

SAMICO – Confesso que tenho um certo receio de mostrar as pinturas. Receio da opinião dos outros, dos críticos. A idéia partiu da produtora da mostra, Júlia Peregrino, em acordo com o curador, Frederico Morais.

JC – Há alguma diferença entre expor no Recife ou no Rio de Janeiro? Qual das mostras é mais gratificante?

SAMICO – Não há diferença. A mostra aconteceu no Rio porque Júlia Peregrino elaborou o projeto e apresentou ao Centro Cultural Banco do Brasil, que fica lá. Foi uma oportunidade que surgiu. Olhe, esse é um assunto complicadíssimo. Há pessoas
que dizem que um artista para ser reconhecido em casa, antes precisa ser considerado lá fora. Numa
entrevista, lamentei que a exposição não tivesse sido montada aqui.

JC – Você se considera um artista reconhecido e bem remunerado entre seus conterrâneos?

SAMICO – Acho que sou remunerado merecidamente. Reconhecimento acho que já existe há algum tempo, mas o fato de eu ver uma
exposição como essa na terra em que nasci me deixa muito feliz. Acho que uma retrospectiva desse porte é como uma prestação de contas. Um saldo do meu trabalho até agora. Era um desejo meio bairrista…

JC – Afinal, o pernambucano é bairrista?

SAMICO – O pernambucano, o baiano, o carioca. Pergunte a um carioca qual a cidade mais bonita do mundo. Ele vai dizer que é o Rio de Janeiro. Eu também acho o Rio uma cidade muito bonita, e nem sou de lá. Agora, se você me perguntar, vou dizer que o Recife é muito bonita também. Já foi mais, muito mais. Hoje a cidade está estraçalhada. A arquitetura moderna não soube se integrar aos nossos casarões antigos. Os novos prédios do Recife agridem a paisagem. A Rua da Aurora é um exemplo disso. Mas, apesar de tudo, ainda acho o Recife uma cidade bela.

JC – No Rio, você trabalhou no escritório de design de Aloísio Magalhães. A comunicação visual influenciou ao seu trabalho?

SAMICO – Eu era um instrumento do escritório, um arte-finalista, não era o criador. Acho que já fui trabalhar lá porque sou, com o meu trabalho, por natureza, muito disciplinado. Claro que há coisas misteriosas na criação de uma artista e nem
sempre a gente consegue dizer de onde vem a influência. Esses convites que são feitos de maneira sutil vão somando coisas na produção da gente, desde que se esteja receptivo, claro. O fato de eu ter trabalhado com Aloísio era porque ele precisava de um desenhista com o traço preciso, justo, com bom acabamento. Acho que deu uma contribuição para meu trabalho, mas eu, por mim mesmo, já tinha esse sentido de ser muito cuidadoso com a finalização e acabamento do que fazia.

JC – Suas gravuras têm essa característica. São feitas com uma habilidade técnica muito apurada…

SAMICO – Habilidoso? Não gosto dessa palavra, “habilidoso”. Tenho receio de usá-la. Fica parecendo que a pessoa domina apenas a técnica, que não é uma artista completo.

JC – Com essa recusa do termo “habilidoso” você quer dizer que a técnica bem apurada não é a parte mais importante de seu
trabalho?

SAMICO – Uma gravura minha não acontece por acaso. Trabalho muito antes de definir a composição. Não existe essa coisa de inspiração. Nunca achei uma musa (risos). Faço 10, até 15 estudos. Não é fácil. São pequenas coisas que vão mudando. Não é um trabalho 100% racional, nem 100% espontâneo. Mistura o inconsciente e o consciente, é um acordo entre os dois.

JC – Em quê você pensa quando está criando, quais são seus objetivos?

SAMICO – Construir projeto para uma gravura. Os elementos podem nascer de pequenas coisas. Penso num elemento, que vai dar origem a todo o resto. Depois, surgem as peças que serão colocadas no entorno desse elemento, que gerou todo o projeto da composição.

JC – Qual sua fonte de pesquisa?

SAMICO – Essa história longa. Mas onde busquei minha fonte maior de pesquisa foi no cordel – mais nas histórias do que nas gravuras das capas, diga-se. O que me interessa são as lendas, as narrativas contadas, não queria reproduzir a estética dos gravadores populares, porque eu não sou um artista popular. Mas não fui para o cordel sozinho. Isso faz parte das minhas conversas com meu amigo Ariano Suassuna, no início da década de 60. Na época, eu dizia que não estava satisfeito com os rumos que minha gravura estava tomando. Achava que ela estava ficando muito parecida com as gravuras de fora. Então, foi Ariano que me chamou a atenção para esse universo popular. Ao mesmo tempo fiquei fascinado e medroso. Como é que eu ia lidar com isso? Meu maior desafio foi saber como trabalhar com essa linguagem. E foi aí que surgiu minha linguagem.

JC – Num dos ensaios do catálogo, Fernando Morais afirma que você tem medo de perder a identidade? Por quê?

SAMICO – Medo de derrapar. Não sou experimentalista. Tenho linguagem conquistada com esforço muito grande. Tenho medo de receber influências que modifiquem minha arte.

JC – Você se dedica a obtenção de bons resultados nos dois aspectos de seu trabalho: conteúdo e técnica…

SAMICO – Sim. A carga expressiva para mim é muito importante. E a técnica tem que ter qualidade, tem que ser bem feita. Mas não quero que o resultado da minha obra seja o “bonitinho”. A beleza de minhas gravuras está no todo da obra. Recuso o “bonitinho”.

JC – Sua arte é sempre considerada meio mística, filosófica, religiosa. Que adjetivos você aplicaria ao seu trabalho?

SAMICO – É muito difícil. Claro que não se pode desligar uma coisa da outra: a intenção e o resultado. Há um caráter intencional nos desenhos que faço. Não diria filosofia, porque compreende mais outros aspectos do conhecimento humano.
Mas, uso sempre o simbolismo do bem e do mal. Os contrastes das minhas gravuras expressam uma dicotomia, o claro e o escuro, o dia e a noite. Este é um elemento recorrente na minha obra.

JC – Que outras características você atribui a sua obra?

SAMICO – Ela é otimista. Não pretendo fazer com ela nenhuma panfletagem. Há também uma certa religiosidade, não obrigatóriamente em alguma direção, mas elementos simbólicos religiosos e até pagãos. Os elementos que coloco na gravura – o
peixe, a serpente – têm forte carga simbólica, embora eu nem queira saber o que significam. Tenho um livro de Jung, mas nunca abri. Não leio para não ficar influenciado.

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Um comentário em “Entrevista com Gilvan Samico

  1. O entrevistador foi um pouco capcioso em suas perguntas e tentou de leve manipular algumas das respostas de Samico. Gostei da extensão da entrevista.

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