JOÃO E SEUS FOLGUEDOS


Retirado de Rabisco

JOÃO E SEUS FOLGUEDOS
Além da alegria, os festejos de São João mostram a perpetuação da religiosidade popular

por Ana Lira (analira@rabisco.com.br)

á mais de quatro séculos, os festejos juninos são realizados em diversas partes do País e constituem uma das principais comemorações da cultura popular nacional. Nessas localidades são montados arraiais, a população vende comidas feitas com milho (canjica, pamonha, angu) e bebidas, coreografias são ensaiadas durante meses para a apresentação das quadrilhas e ritos de adivinhação alegram as noites de quem, através da sorte, procura saber a possibilidade de um casamento. Essa comemoração, no entanto, é baseada em manifestações folclóricas sacras e possui interpretações diferentes, dependendo da região do Brasil. Embora nem sempre lembrada, a religiosidade popular ainda está presente nos folguedos realizados em muitas cidades, principalmente no Nordeste.

UM POUCO DA HISTÓRIA DAS FESTAS JUNINAS…

No Nordeste a versão contada e registrada dos festejos está baseada na história do cristianismo no ocidente. Diz-se que a natureza sempre foi fruto de homenagens em diversas sociedades ocidentais. Antes do domínio cristão, os povos bárbaros realizavam rituais de agradecimento aos deuses, pelos frutos gerados pela terra, utilizando fogueiras, sacrifícios, cantos e danças. Com o advento do cristianismo, os povos mantiveram a tradição, através do sincretismo religioso, passando a homenagear os santos do período do plantio e os ritos do fogo ocorriam com o acender de fogueiras e o soltar de fogos de artifício.

Conta-se que esses festejos foram trazidos para o Brasil pela ala católica da comitiva portuguesa e aqui chamados de festas juninas. O ciclo junino se iniciaria com o plantio do milho no mês de março e se encerraria com as comemorações no mês de junho, reunindo louvações a São José, Santo Antônio, São João, São Pedro e São Paulo – estes dois últimos são comemorados no mesmo dia, 29 de Junho. Canções como “São João do Carneirinho”, de Luiz Gonzaga e Guio de Moraes, ilustram esta interpretação histórica.

Eu prantei meu mio todo
No dia de São José
Se me ajuda a Providência
Vamos ter mio a grané
Vou colhê pelos meus cálculos
Vinte espiga em cada pé
Pelos cálculos vou colhê
Vinte espiga em cada pé

Ai, São João
São João do carneirinho
Você é tão bonzinho
Fale cum São José
Fale lá cum São José
Peça pr´ele me ajudá
Peça pro meu mio dá
Vinte espiga em cada pé

Um artigo do vice–presidente da Comissão Catarinense de Folclore, Nereu do Vale Pereira, intitulado Festas Juninas ou Joaninas mostra que no Sul a explicação difere da nordestina. Segundo o autor, as festas juninas ou “joaninas” estão ligadas ao dia do nascimento de São João Batista, em 24 de junho. Nos primeiros dias do inverno, o sol se encontra na posição de maior afastamento do equador e no hemisfério sul ocorre a noite mais longa do ano, fenômeno que chamamos de Solstício de Inverno. No hemisfério norte, pelo contrário, ocorre o dia mais longo do ano e o acontecimento, por sua vez, é chamado de Solstício de Verão.

No hemisfério norte, esta ocasião era comemorada como o anúncio do novo sol e esta relação colocaria o nascimento de João Batista no centro do calendário cristão, pois, três meses antes, Maria de Nazaré receberia a notícia de que fora escolhida para dar a luz a Jesus Cristo. O nascimento de João na época do solstício concretizaria, então, o anúncio do novo sol, a vinda do messias ao mundo seis meses depois.

O período do solstício se inicia no dia 21 junho, porém, o ciclo junino englobaria as festas realizadas para Santo Antônio e São Pedro. Nereu Pereira coloca que as fogueiras, os fogos, as rezas e as demais manifestações de alegria viriam, primeiramente, de um relato antigo no qual o pai de João Batista, para anunciar a chegada do filho às aldeias longínquas, teria acendido uma fogueira; e posteriormente de uma segunda explicação que trata da utilização destes elementos nas festividades do Solstício de Verão.

Ainda segundo o artigo, na região litorânea catarinense, as festas juninas chegaram com a comunidade açoriana, cuja tradição tem João Batista como o santo das luminárias, da anunciação, pois, as luzes, os rojões e os balões eram os principais meios de emitir avisos nos tempos antigos. Desta forma, o uso de fogueiras, fogos de artifício, danças e rezas seriam as maneiras encontradas pelas pessoas para expressar religiosidade, agradecer os pedidos realizados e festejar em comunidade o anúncio do novo sol.

A BANDEIRA DE SÃO JOÃO ACORDA O POVO…

A Bandeira de São João é uma das procissões dançantes mais antigas do Brasil. Ela se caracterizava pela saída de um cortejo, nas primeiras horas da noite do dia 23 de Junho, após o acender das fogueiras, e percorria os vilarejos ao som de pequenos grupos musicais e instrumentos de percussão – que foram anexados a partir da integração dos escravos nos festejos cristãos. Através do sincretismo religioso, os negros louvavam a Xangô na festa de São João.

O ritual era acompanhado por membros das comunidades que rezavam, cantavam e dançavam coreografias populares e, ao término, entregavam a imagem de São João na igreja da comunidade. Com o tempo, o folguedo foi profanizado e a exaltação de alguns grupos nas danças e, principalmente, nas bebidas, dentro do recinto religioso, levou a Igreja Católica a proibir a entrega da imagem no templo.

Esta atitude acabou por dividir o folguedo em duas manifestações: uma sacra e outra profana. A Bandeira de São João tornou-se uma procissão e saía no mesmo horário do evento tradicional, portando um andor com uma imagem de João Batista adornado com flores vermelhas e brancas. Os acompanhantes rezavam e cantavam hinos de louvor acompanhados por músicos e instrumentos percussivos. A festa profana foi chamada de Acorda Povo, e saía durante a madrugada com um grupo de cantadores acordando os moradores da cidade para participar da comemoração. Esta era regada a vinho quente, caipirinha e quentão, além de comidas típicas. Até o dia amanhecer seus participantes realizavam cantorias, danças e muitas brincadeiras.

VOLTANDO À TRADIÇÃO…

Nas últimas décadas em Recife, porém, diversos grupos voltaram a realizar os dois folguedos juntos. O crescimento da violência na região metropolitana acabou inviabilizando a saída do Acorda Povo pela madrugada e os organizadores decidiram retornar ao formato tradicional. O clima de festa se inicia com a decoração da residência que servirá como “casa-capela”. Esta é adornada com bandeirinhas, balões e uma fogueira. Os participantes trazem pratos da culinária típica da época, bebidas e aquecem o cortejo com cantos e muito forró pé-de-serra.

O andor fica localizado em um lugar amplo da casa para proporcionar um melhor acesso àqueles que quiserem fazer suas orações ou agradecer as graças recebidas. Além do andor, outros componentes compõem o cortejo: uma estrela, geralmente confeccionada em armação de arame e coberta com papel ou plástico; um estandarte com a imagem de São João pintada e as lamparinas feitas com vela, que são carregadas por pessoas vestidas com trajes vermelho e branco.

Antes da saída, o cortejo realiza as orações pedindo bênçãos, louvando ao santo e dando vivas, que geralmente são acompanhadas pelo soltar dos fogos. A estrela sai na frente, para iluminar o caminho, seguida pelo estandarte. Um personagem vestido de padre circula entre os presentes abrindo o caminho para que um grupo, portando água perfumada, lance pingos sobre os participantes. Andor é, então, carregado por pessoas vestidas de branco e em cada lado forma-se uma fila dos membros que trazem as lamparinas. Atrás deste grupo encontram-se os músicos e pessoas vindas de diversas partes da comunidade.

A Bandeira de São João, agregada ao Acorda Povo, visita os arraiais, onde faz uma parada para cantar e dançar junto aos presentes. Quando o cortejo prepara a despedida, os participantes entoam a canção:

“Acorda povo
que o galo cantou
é São João
que anunciou.
Que bandeira é essa
que vamos levar
é de São João
para festejar”

Além dos arraiais, o cortejo de um bairro saúda os outros grupos nas casas-capela das comunidades vizinhas, e também realiza homenagens nas igrejas da localidade. No percurso, os participantes degustam as bebidas típicas da festa profana, que termina com uma grande comemoração na casa-capela dos padrinhos do folguedo, que são escolhidos a cada ano.

CANTANDO PARA SÃO JOÃO…

As cantorias e as músicas são elementos fundamentais deste tipo de comemoração popular. Nelas estão inseridas os desejos, as orações, e os agradecimentos das comunidades. O “Hino do Acorda Povo” e “Louvação” são dois exemplos da perpetuação da tradição musical do cortejo.

Louvação
(A. Madureira, Ronaldo B. e Assis Lima)

Meu São João
Meu São João
Hoje será tua festa
Saudemos tua bandeira.

São João mandou
São João mandou
Cantar, dançar noite inteira
Para louvar a fogueira.

Hino do Acorda Povo
(autor desconhecido)

Acorda povo
que o galo cantou
é São João
que anunciou.

Que bandeira é essa
que vamos levar
é de São João
para festejar

Acorda povo
que o galo cantou
é São João
primo do senhor

Se São João soubesse
quando era seu dia
descia do céu
com prazer e alegria

São João foi tomar banho
com vinte e cinco donzelas
as donzelas caíram n´água
São João caiu com elas

Ó meu São João
eu vou me banhar
as minhas mazelas
no rio deixar

Ó meu São João
eu já me banhei
as minhas mazelas
no rio eu deixei

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