Matéria sobre o Jongo


Retirado de Ministério da Cultura

18 de agosto de 2008

Mais do que assunto de folclore

O Estado de S. Paulo – SP, 17/08/2008, Elizabeth Travassos

Memória do Jongo vem com CD de gravações históricas que permite acesso a um público mais amplo

Não faz muito tempo, somente colecionadores e estudiosos que conheciam os meandros dos acervos públicos e privados escutavam gravações históricas. A edição de CDs com pelo menos parte desse material permite a um público mais amplo ouvir a história da música brasileira. Felizmente, não só a música gravada para distribuição comercial tem recebido atenção nas edições recentes. A tendência alcançou os registros sonoros, geralmente feitos por pesquisadores, da música que nunca interessou à indústria cultural.

Memória do Jongo pertence a essa vertente editorial que floresce com o apoio de patrocinadores, pela via da Lei de Incentivo à Cultura. Mas a coleção que o livro divulga é singularmente pequena: os 81 fonogramas que o historiador norte-americano Stanley J. Stein gravou em Vassouras, em 1949, têm ao todo pouco mais de meia hora. A proporção entre material sonoro e anotação inverte-se nessa publicação, que apresenta textos extensos dos historiadores Silvia Hunold Lara, Hebe Mattos, Martha Abreu e Robert Slenes. O núcleo da coleção é constituído pelos 60 pontos de jongo, forma de expressão vocal criada pelos escravos das fazendas de café e cana-de-açúcar do Sudeste. Registrado pelo Iphan em 2005 como Patrimônio Imaterial nacional, o jongo foi, durante um bom tempo, assunto que só despertava a curiosidade de folcloristas e um ou outro sambista. Na última década, vem recebendo atenção dos historiadores e cientistas sociais.

O antropólogo Gustavo Pacheco (co-organizador do livro) relata na introdução as peripécias para obter a gravação original em fio de arame e transcrevê-la em um suporte moderno. Um texto do próprio Stanley Stein situa as gravações no contexto da pesquisa que desenvolveu no Brasil, há 60 anos. Interessado na economia e relações sociais na plantation de café, não atribuiu muita importância às suas gravações. Não guardou o nome das pessoas que cantam e tocam nem o lugar onde gravou os sambas da coleção. O jongo foi gravado “por acidente” (pág. 37), foi “fruto do acaso” (pág. 40) de uma conversa sobre a Abolição com dois “afro-brasileiros idosos”, na feira, em Vassouras. Reiterando o vínculo entre jongo, memória da escravidão e da libertação, os interlocutores de Stein reagiram à sua pergunta cantando um ponto de jongo.

Silvia Hunold Lara comenta o livro de Stein (Vassouras: a Brazilian Coffee County, 1850-1900), publicado originalmente em 1957. Particularmente interessantes são suas observações sobre a flutuação dos modos de ler essa obra. As mudanças na leitura sucederam-se, afinadas com as inclinações teóricas e as agendas políticas dos historiadores, e culminaram na impressão contemporânea de “pioneirismo”: Stein teria feito como que uma micro-história avant la lettre. No contexto de interesse pelas práticas cotidianas e de empenho no registro de narrativas orais de descendentes de escravos, Stein despontou como um precursor.

Hebe Mattos e Martha Abreu fazem, passo a passo, a revisão das descrições do jongo por estrangeiros, folcloristas, músicos e cientistas sociais, desde o século 19 até os nossos dias. Como bem observam, a discussão atual sobre a transformação do jongo em espetáculo para consumo de não-jongueiros deve levar em conta que é velho o afã com que os brancos olham as danças dos negros, objeto de atração e reprimenda. O conteúdo dos cantos, entretanto, escapou e escapa aos observadores. É provável que do jongo só tenham visto a face pública; outras subtraíram-se (e subtraem-se) à observação, mas o que delas se entrevê sugere que o canto de jongos, a dança e todos os elementos associados contribuíram para articular as relações internas às comunidades de escravos e seus descendentes, relações abrangendo comunidades vizinhas e antepassados. O ensaio de Robert Slenes penetra nesse mundo. Apoiando-se no conhecimento da história e cultura centro-africana, Slenes analisa os registros de Stein e dos folcloristas, especialmente os de Maria de Lourdes Borges Ribeiro, a quem faz justa homenagem. A partir da hipótese de reelaboração, na plantation, da visão de mundo das populações centro-africanas, especialmente as da zona litorânea, Slenes investe na etimologia do vocabulário jongueiro e na exegese dos elementos enigmáticos do jongo: o ponto que se ata e desata, a conexão com a umbanda, o poder mágico das palavras.

No CD, há 60 jongos cantados, alguns com menos de 10 segundos, a maioria encerrada por um “pronto!” e “pronto, é isso aí!” dito pelo jongueiro ao interlocutor. (Curiosamente, quem usa as interjeições jongueiras “cachoeira!” e “machado!” nesse livro são os pesquisadores.) A impressão de estarmos ouvindo fragmentos deve-se ao contexto da gravação em que um ou dois jongueiros, sozinhos, rememoraram pontos sem o estímulo da interação com os tambores e com o coro de companheiros(as). Nas gravações de Vassouras, encontram-se versões de pontos que estão em circulação entre os jongueiros contemporâneos, alguns deles anotados e comentados por outros pesquisadores (como o antológico “Tanto pau no mato / Embaúba é coroné”). Outros pontos nunca foram registrados antes, pelo que sei. Isso sugere um equilíbrio entre surgimento de pontos novos e sedimentação na memória do repertório compartilhado.

Os jongueiros de Vassouras entoam o ponto no estilo parlando que ainda é bastante comum no canto-solo dos jongueiros, acompanham-se com palmas e usam interjeições iniciais (aê!, ô!), como as que Darcy do Jongo, por exemplo, usava com desenvoltura nas cantigas do Jongo da Serrinha. Ouvem-se no CD variantes de pontos cantados nos dias de hoje, como o da faixa 28, que diz: “Eu sou mineiro mau/ Não bule comigo não” e que ecoa a ameaça sutil do “Não mexe com pinto/ Galinha assanha”, cantada pelo pessoal do Quilombo São José da Serra, em Valença). Finalmente, há a presença de temas inconfundíveis: onde mais, nas tradições orais dessa região, senão no jongo, se canta do tatu que cavuca a terra? Este e outros tropos jongueiros, corajosamente interpretados por Robert Slenes, podem ser apreciados no livro e no CD.

Memória do Jongo

Hunold S. Lara e Gustavo Pacheco (orgs.)

Folha Seca, 200 págs., R$ 25

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