O CEGO SINFRÔNIO


Retirado de Jangada Brasil – ÓTIMO ‘saite’

O CEGO SINFRÔNIO

Um dos cantadores mais espontâneos com quem tive a fortuna de travar conhecimento foi o cego cearense Sinfrônio Pedro Martins, nascido no Jaboti, perto de Messejana. Conheci-o em Fortaleza e o tive, várias vezes, comigo, fartando-me de notas interessantíssimas sobre o folclore do nordeste, pois ele conhece palmo a palmo os sertões de todos os estados acossados pela seca.

Sinfrônio cegou quando tinha apenas um ano de idade e, o que parecerá quase incrível, raros cantadores encontrei com tão vasto cabedal de romances, cantigas e desafios, tudo maravilhosamente retido na memória fidelíssima. É a mulher do cego repentista que lhe lê, pacientemente, manuscritos e folhetos até que ele os consiga recitar.

O cego Sinfrônio é, acima de tudo, perito improvisador. Ao chegar, à primeira vez, à minha casa, ele cantou, com a naturalidade de quem falava, estas sextilhas que eu anotei taquigraficamente:

Anda já em quarenta ano

Que eu vivo somente disso

Achando quem me proteja

Eu sou bom neste serviço

Eu faço vez de machado

Em tronco de pau mucisso…

 

Esta minha rabequinha

É meus pés e minhas mão

Minha foice e meu machado

É meu mio e meu feijão

É minha planta de fumo

Minha safra de algodão…

 

Eu, atrás de cantadô

Sou como boi por maiada

Como rio por enchente

Como onça por chapada

Como ferrôi por janela

Menino por gargaiada!

 

Eu, atrás de cantadô

Sou como abêia por pau

Como linha por agúia

Como dedo por dedal

Como chapéu por cabeça

E nêgo por berimbau

 

Eu, atrás de cantadô

Sou como vento por praia

Comojunco por lagoa

Como fogo por fornaia

Como piôi por cabeça

Ou pulga por cós de saia!

Feita esta original apresentação e quando eu já possuía a certeza de ter diante de mim admirável profissional do canto, arrastado a esse gênero de vida beduína, não somente por motivo da cegueira que o inibia de misteres outros, mas ainda por natural tendência de aproveitamento do excelso dom com que a natureza o compensara da perda da visão; quando percebeu que eu já estava capacitado do valimento de seu estro, Sinfrônio começou a falar-me dos cantadores que tivera de enfrentar em suas ininterrruptas peregrinações. Do seu encontro com o cego pernambucano Elias Ferreira, ele me repetiu esta introdução:

– Sinfrone, vai me contando

Que é que tu anda fazendo

Se anda dando ou apanhando

Se anda comprando ou vendendo

Se anda bebendo ou jogando

Se anda ganhando ou perdendo

 

– Elias, eu lhe declaro

E a todos que tão olhando

Me acho na terra alêia

Nem bebendo nem jogando

Nem ganhando, nem perdendo

Ando mas é vadiando!

Falei-lhe, incidentemente, do famoso cantador Joaquim Venceslau Jaqueira, que, de há muito, emigrara para a Amazônia. Eu conhecia de Jaqueira esta quadra:

A mió das invenções

Que eu achei mió produto

Foi a invenção do relojo

Marcando hora e minuto

Sinfrônio informou-me de que “Jaqueira, toda vida, foi um cabra da rede rasgada”, jogador e beberrão. E referiu-me que o mesmo assim fizera a sua estranha profissão de fé:

Eu andei de déu em déu

E desci de gaio em gaio

Jota a-Já, queira ou não queira

Eu não gosto é de trabaio

Por três coisa eu sou perdido

Muié, cavalo e baraio!

Depois de novamente haver afinado o instrumento, Sinfrônio avisou-me que me ia falar de si mesmo. E cantou a peleja que tivera em Sobral com o cantador Manuel Passarinho:

Meu povo, preste atenção

Vou contá o que se deu

Ninguém fique duvidando

Juro como aconteceu

Vou contá de um agora

Cantô que cantou mais eu

 

Fazem dezenove ano

Que eu cantei mais esse tal

Ele dizendo que era

Nascido lá no Arraial

Porém a nossa peleja

Se deu com nós em Sobral!

 

Foi isso um dia de sabo

Quando na cidade entrei

Pela dez hora do dia

No Jaibara passei

Convite pra cantoria

Na mesma tarde encontrei

 

Pra casa do Zé Taveira

Fui eu logo convidado

Por um dito mano dele

Fui eu na rua encontrado

Pra casa do mesmo home

Foi outro cantô chamado

 

– Venha cá, seu Zé Taveira

Mais o seu mano Joãozim

Quero que preste atenção

Do grande ao pequeninim

Eu diverti mais um cego

Pra ensiná-lhe o camim…

 

– Venha cá, seu Zé Taveira

Como chefe de família

Do grande ao pequeninim

Oiçam minha cantoria

O homem que não tem vista

Só pode andar tendo guia!

 

– Ceguinho, afine a rabeca

Pode acostá-se à parede

Vem dicomê, mata a fome

Vem aluá, mata a sede…

 

– Cantadô, você me diga

Cumo tá no meio dos home

E não é meu conhecido

Me diga cumo é seu nome

 

– Eu sou Manuel Passarinho

Féli da Costa Soare

Engulo brasa de fogo

Pego curisco nos are

Jogo pau, quebro cacete

Com cinco ou seis que chegare

 

– Meu nome é Sinfrônio Pedro

Martim é meu sobrenome

Bóqué de nova açucena

Cravo branco, amô dos home

Feijãozim farta-guloso

É com que se mata a fome…

 

– Sinfrone, me conta logo

A tua disposição!

Óia que eu carrego o saibro

Das tuas informação

Andas com fama de duro

Aqui pelo meu sertão…

 

– Eu não sei se será falso

E se é exato não sei

Mas cantô que me açoitasse

Ainda não encontrei!

Pode sê que eu inda encontre

Até onte eu não achei…

 

– Sinfrone, se eu me zangá

Passo-te a peia no lombo

Dou três tapa – são três queda!

Três empurrão – são três tombo!

Se eu puxá por minha faca

Não tem quem te conte os rombo…

 

– Não é com essas asneira

Que eu deixo de diverti

Quem conhecê não te compra

Eu nem quero descobri…

Mas o cão é quem faz conta

De dez da fêlpa de ti!

 

– Cego, tu qué te metê

Em camisa de onze vara?

Quem com Passarinho arenga

Apanha, de mão na cara…

Em balança eu sempre peso

Dez cego não dão a tara

 

– Nunca vi barco sem vela

E nem doente sem ansa…

A onça, tando acuada

Ninguém pega com lambança!

Vigie que falá é fôrgo

Obrá precisa sustança…

Eu de dez não faço conta

Quanto mais de uma criança…

 

– Por causa de confiança

Foi que eu vi um pequenino

Açoitá um home idoso

Cumo você – sem ensino…

Cumo não tomou emenda

Morreu nas mão dum menino

 

– Você tá fazendo arte

De eu metê-lhe em sujeição

Chamo aqui por dois soldado

E te boto na prisão…

Você preso não é nada

O diabo é levá facão…

 

– Você ficando mais véio

E ainda arrenovando

Tornando a nascê dez vez

Todas dez se batizando

Todaas dez vindo cantá

Todas dez sai apanhando!…

 

– Orêia de abaná fogo

Cabeça de batê sola

Pestana de porco ruivo

Queixada de graviola

Canela de maçarico

Pé de macaco da Angola!

 

– Venta de pão de cruzado

Bucho de camaleão

Cara de cachimbo cru

Pescoço de garrafão

Testa de carneiro môcho

Fucim de gato ladrão

 

– Passarim, se eu dé-lhe um baque

Tenho pena de você:

Cai o corpo pruma banda

E a cabeça – pode crê!

Passa das nuve pra cima

Só volta quando chuvê

 

– Cantadô nas minha unha

Passa mal que se agonêia

Dou-lhe almoço de chicote

Janta pau, merenda pêia

De noite ceia tapona

E murro no pé da orêia

 

– Passarim, agora mêrmo

Começou a carretia:

Eu vou entrá no teu couro

Que nem faca em melancia

Cuié em mamão maduro

Ou crimatã na água fria

 

– Este cego só cantando

Por arte do capiroto!

Agora é que eu reparei

Que este sujeito é canhoto…

Eu vou saindo de banda

Senão eu saio é de chouto

 

(MOTA, Leonardo. Cantadores)

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