Sinfrônio: Entre o mito e a realidade


Retirado de Sociedade de Assistência aos Cegos

Sinfrônio: Entre o mito e a realidade

Os dois mais afamados cantadores/violeiros cegos do Ceará, Sinfrônio (à esq.) e Aderaldo (à dir.), tendo ao centro o grande folclorista Leonardo Mota
Os dois mais afamados cantadores/violeiros cegos do Ceará, Sinfrônio (à esq.) e Aderaldo (à dir.), tendo ao centro o grande folclorista Leonardo Mota

Os dois mais afamados cantadores/violeiros cegos do Ceará, Sinfrônio (à esq.) e Aderaldo (à dir.), tendo ao centro o grande folclorista Leonardo Mota.

“Mesmo ante a grita do povo,
Haja seca onde se vá,
Eu quero nascer de novo
Na terra do Ceará”

Sinfrônio Martins

(Quadrinha psicografada pelo médium Chico Xavier, em Uberaba-MG, a 24.03.81, perante uma comitiva de cearenses e que está, entre várias outras de trovadores do Ceará, no livro “Nessa Estrada Eu Caminhei”, do jornalista Fenelon Almeida)

Sua fama ocupa lugar entre os mais populares ídolos da gente nordestina: Cego Sinfrônio disputa com Aderaldo, também deficiente visual, as glórias das mais arrojadas pelejas de cantadores nas feiras e no terreiro das fazendas dos nossos sertões. Em razão disso, atribui-se a ele um número quase infinito de versos espirituosos que se incorporaram ao imaginário popular, muitas vezes de autores diferentes, mas sem a mesma popularidade. Como Bocage, como Quintino Cunha, como os Cavaleiros da Távola Redonda, essas figuras presentes nas cantorias prolongadas e alegres, passando a dominar o universo cultural do homem sertanejo, assim é Sinfrônio na mitologia do Nordeste.

Da pessoa de Sinfrônio são poucas as informações. Quase não se conhecem dados biográficos desse extraordinário menestrel. Geraldo Amâncio e Vanderley Pereira, duas das mais respeitáveis fontes do cancioneiro nordestino, pouco adiantam na sua grande obra “De Repente Cantoria”, onde existe uma rápida referência ao Cego Sinfrônio, com vaga descrição sobre seu porte físico e uma pequena mostra do seu talento de improvisador de versos.

Já Leonardo Mota, sem favor o mais conhecido e respeitado pesquisador do folclore do Nordeste, em sua obra clássica (e rara), “Cantadores”, – que Nirez Azevedo me emprestou para consulta, – reserva um espaço maior à figura de Sinfrônio, revelando-nos, todavia, muito pouco acerca de sua personalidade. Fica-se sabendo que ele nasceu no distrito de Messejana, Fortaleza, no sítio por nome Jaboti.

Escreve Leota sobre o famoso cego-cantador:

“Um dos cantadores mais espontâneos com quem tive a fortuna de travar conhecimento foi o cego cearense Sinfrônio Pedro Martins, nascido no Jaboti, perto de Messejana. Conheci-o em Fortaleza e o tive, várias vezes, comigo, fartando-me de notas interessantíssimas sobre o folclore do Nordeste, pois ele conhece palmo a palmo os sertões de todos os Estados acossados pela seca”.

De fato, Sinfrônio, como Aderaldo, não encarava distâncias para suas caminhadas de andarilho pelos sertões do Ceará, da Paraíba, de Pernambuco, Rio Grande do Norte, por todo o Nordeste, para o que a cegueira não representava obstáculo.

O célebre folclorista conseguiu registrar, pela taquigrafia, muitos dos improvisos de Sinfrônio, inclusive algumas disputas entre ele e outros cantadores afamados do interior cearense e nordestino.

Nas suas andanças, Sinfrônio deparou-se, por exemplo, com Manuel Passarinho, que tinha renome de imbatível cantador pelas bandas de Sobral e adjacências.

Da longa cantoria, que Leota logrou captar quase por inteiro, escolhi alguns versos marcantes do duelo. Logo na apresentação, diz Passarinho:

“Eu sou Manuel Passarinho
Félix da Costa Soares,
engulo brasa de fogo,
pego curisco nos ares,
jogo pau, quebro cacete
com cinco ou seis que chegares”.

Sinfrônio afina a rabeca e responde:

“Meu nome é Sinfrônio Pedro
Martim é meu sobrenome;
Buquê de noiva açucena,
Cravo branco, amor dos home,
Feijaõzim farta-guloso
É com que se mata a fome”…

Em meio à troca de desaforos, Passarinho ataca:

“- Cego tu qué te metê
em camisa de onze vara?
Quem com Passarinho arenga
Apanha de mão na cara…
Em balança eu sempre peso
Dez cego não dão a tara”!

A resposta à altura não demora. Canta Sinfrônio:

“Nunca vi barco sem vela
e nem doente sem ansa…
A onça, tando acuada,
Ninguém pega com lambança!
Vigie, que falá é fôrgo,
Obrá precisa sustança…
Eu de dez não faço conta,
Quanto mais de uma criança”…

Sinfrônio Pedro Martins cegou precocemente, com apenas um ano de idade. Não obstante, poucos com tão vasta bagagem de cantigas, de romances, de histórias correntes de boca em boca entre os filhos do sertão. Segundo Leonardo Mota, a esposa lia para ele os folhetos de cantigas e desafios, que ele ia armazenando na memória privilegiada. E era com base nesses informes, que fazia os seus próprios versos, numa capacidade simplesmente fantástica de encontrar resposta para as perguntas mais embaraçosas.

Outro cantador famoso, Jacó Passarinho, insultou a condição de cego de Sinfrônio:

“Sinfrônio, o pobre de um cego
Não me agüenta na vida…
Deixa está que eu vou na frente,
Tu vem atrás na batida.”

Sem se ofender, nem perder um segundo, tacou-lhe esta resposta:

“Passarim é de ôio aceso
Sinfrone é de ôio apagado:
Mas Sinfrone sai se rindo,
Passarim sai sabugado”.

O autor de “Cantadores” assegura que jamais ouviu de Sinfrônio algum verso tendo a mulher como tema. Quadrinha como esta, insistia Leota, não teria sido dele:

“Morena, você me mata
com esta graça que tem…
Você fica criminosa
E eu sem você, meu bem”.

“Debalde”, escreve Leonardo Mota. Sinfrônio sempre se desculpou dizendo que “mulher é bicho que não vive no meu sentido, pois o que o olho não vê, coração não deseja”.

Mesmo sem enxergar, e tendo este conceito explícito sobre a mulher, Sinfrônio foi casado a vida inteira com a mesma mulher, que se tornou, aliás, o seu grande arrimo, fornecendo-lhe, através da leitura, tudo de quanto necessitava o cego para obter dados sobre assuntos os mais diversos para usá-los em seus desafios.

Das milhares de cantorias que aconteciam pelo sertão nordestino, poucas tão repetidas e apreciadas como a que se tornou conhecida como a “Cantiga do Vilela”. Há numerosas versões da mesma por toda parte do Nordeste, citando-se, dentre outras, a duelada entre Jacó Passarinho e Serrador, outra que Cego Aderaldo atribui ao cantador Manuel da Luz, de Bebedouro. Mas Sinfrônio garantiu a Leonardo Mota que a “Cantiga de Vilela”, “a boa, a legítima de Braga”, é a que ele aprendeu do cantador Jaqueira, aqui reproduzida em parte:

“Meu povo, preste atenção
Ao que agora vou contá
De um home muito valente
Que morava num lugá
E até o próprio gunverno
Tinha mêdo de o cercá”.

“Vilela era natural
do sertão pernambucano,
E ele, desde o princípio
Que tinha o gênio tirano:
Comete o primeiro crime
Com a idade de dez ano”.

São dezenas de versos, cada qual o mais curioso e interessante, narrando as proezas de ícone nordestino, o “valentão Vilela, sem a fama de Lampião, mas tão brabo quanto”…

“Com doze ano de idade
numa vespa de São João,
Vilela mais o seu mano
Tivero uma altercação:
Só por causa dum cachimbo
Vilela mata o irmão”.

O diálogo entre Vilela e o Alferes que tinha a missão de prendê-lo é algo que empolgava a matutada, terminando o duelo sem um vencedor:

“Mulher, eu fiz seu pedido,
Não matei aquele home,
Mas me vou, de mato a dentro,
Me acabá de sede e fome
Vou comê das fruta braba
Daquelas que os bruto come”.

E os versos finais:

“Sai o Vilela de casa,
Nos matos escói um canto,
E ninguém nunca pensava
Que ele vivesse tanto…
E no cabo de quarenta ano,
Morreu Vilela e foi santo”.

“Alviça, meu povo todo,
que a minha história acabou-se:
O Alfere foi valente,
E de valente, enforcou-se!
Mais valente foi Vilela:
Morreu, foi santo e salvou-se”…

Foi assim o Cego Sinfrônio, o messejanense Sinfrônio Pedro Martins, que povoou as mentes ingênuas do homem nordestino de tantas e tão fantásticas histórias, na trilha daqueles cavaleiros andantes da Idade Média nos quais, sem dúvida, encontrou inspiração.

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