Mestre Samico e a arte da gravura em madeira


NÃO SOU O AUTOR das linhas abaixo. As retirei de JB Online

Leandro Souto Maior, JB Online

OLINA, PERNAMBUCO – Estar frente a frente com um dos maiores nomes do mundo em determinado assunto é uma experiência enriquecedora. Desfrutar, mesmo que por alguns momentos, da intimidade de um artista do primeiro escalão pode valer por meses de estudo sobre sua especialidade. Com o gravurista pernambucano Gilvan Samico é assim. Com a humildade de um sábio e a experiência de um mestre, um dos maiores nomes do Brasil – e talvez do mundo – na arte da gravura em madeira, Samico recebeu o Jornal do Brasil bem cedo, na manhã da última quinta-feira, em sua casa de três andares em Olinda, que funciona também como seu ateliê e oficina.

Com as mãos sujas de óleo, o artista de 80 anos oferece um largosorriso e o cotovelo como cumprimento. Parece até que ele acorda talhando suas artes. Mas Samico vem produzindo cada vez menos, em média uma tela a cada ano. Por cerca de R$ 2.500, qualquer um pode ter um Samico original em sua sala – uma bagatela, se tratando do artista que ele é.

– Estava “futucando” as coisas aqui em casa. Estou inventando uma máquina para lixar a madeira e deixá-la bem lisa, que batizei de “Geringonça” – revela. – Eu que preparo a madeira em que vou gravar. Quando trabalho em uma gravura, fico esgotado, aí começo a serrar as coisas aqui em casa. Quero fazer um balaústre na sala que nunca fica pronto.

Como que uma mistura de Gepeto com Leonardo da Vinci, Samico conta que um dos motivos que o leva a fazer poucos quadros é para não desvalorizar seu legado.

– Quanto mais se faz, menos eles valem. Se eu pudesse viver 500 anos,faria um quadro apenas de dez em dez anos. Em 2008 fiz dois quadros,mas só porque eram meus 80 anos. Trabalhei dobrado. Agora estou de férias!

Avesso à badalações, Samico está cada vez mais caseiro. Sua ida à recente inauguração de uma inédita e inusitada exposição conjunta com o jovem grafiteiro do Recife Derlon, na abertura do Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, na última quarta-feira, era esperada com ansiedade pelos organizadores, porque ele raramente comparece a essas ocasiões.

Sua esposa, a professora de ioga Célida, chega oferecendo café e diz que o governador talvez vá no evento de lançamento de um catálogo sobre sua obra.

– Faço questão não… nem eu sei se vou – diz, em tom irônico. –Depois de ir a muitas vernissages, me dei conta que odeio esse negócio. Se tiver comida então, fica mais chato ainda.

Samico opera suas gravuras com um rigor enorme. Ele compara a gravura um processo cirúrgico.

– Ao debastar a madeira, não pode haver erro, senão o erro fica lá gravado na passagem para a impressão no papel – explica. – Tem telas que faço cerca de 45 estudos antes de chegar ao resultado definitivo, o que acho muito. Mas outro dia fiquei deprimido ao ler que Matisse chegou a fazer 3 mil estudos antes de pintar um quadro. As pessoas não imaginam o trabalho que dá produzir uma obra. Por isso não faço mais com a alegria do passado. Sabe quando fico contente? Quanto termino a gravura e posso dizer: “Me livrei”!

Ao 80 anos, Samico talvez não precise mais produzir nenhum quadro, mas mesmo com o desgaste que aponta ter com a produção de uma nova obra,ele está longe de pensar em pendurar as talhadeiras.

– Eu não faço gravura por prazer. Acho que fui destinado a isso. Com a minha idade, às vezes me pergunto “será que ainda vale a pena fazer?”, mas se continuo produzindo é porque ainda sinto a necessidade.

Auto-suficiente

Há cerca de 20 anos Samico não tem mais ligação com galerias ou marchands. Encastelado em Olinda, criou uma estrutura em que produz, expõe e ele mesmo recebe em casa os interessados em comprar suas obras, além de enviar por sedex gravuras encomendadas via telefone ou e-mail.

– Quando voltei para Pernambuco, em 1964, procurei uma ruína para erguer meu espaço – relembra. – Ter escolhido esse prédio de três andares não foi por gulodice, é que foi o mais barato que encontrei. Com o tempo, aperfeiçoei muito o espaço. Quando chegamos, era apenas um quarto, que acabou ficando para as crianças (Samico tem dois filhos com Célida, Luciana, 47, e Marcelo, 43), e a sala era para dormir, comer, fazer gravuras e outras coisas inconfessáveis.

Neste momento ouve-se um barulho alto, como que latas caindo no chão, apesar de não haver mais ninguém em casa.

– Não se preocupem, é um fantasma que mora aqui na rua e de vez em quando vem me visitar – desconversa, sem se abalar.

A mudança para o bangalô em Olinda também afetou a sua produção. Com mais espaço para trabalhar, Samico parou de fazer gravuras pequenas e passou a gravar – exceto em trabalhos encomendados – apenas em telas maiores, de 90 x 50 cm, dimensão que marca sua obra até hoje.

“Som da moléstia”

Samico se diz ruim para guardar datas, mas tem um dia que ele nunca se esquece, o 11 de setembro, mas não pela tragédia das torres gêmeas nos Estados Unidos. Nesse dia, só que no ano passado, uma tupia – máquina usada para trabalhar a madeira – cortou a cabeça de seu dedo indicador da mão esquerda. Foi o único acidente grave nesses anos de carreira.

– Ainda bem que não foi na mão direita. Por isso eu sempre digo que tenho mais sorte que talento.

Outro acidente recente operou uma mudança radical em seu temperamento. Samico fez fama de ser uma pessoa arredia, difícil de se entrevistar, que não gostava de falar. Não foi o cenário que o Jornal do Brasil encontrou. De acordo com o próprio artista, uma pancada na cabeça fez com que ele desandasse a falar pelos cotovelos.

– Um poste bateu em mim. Foi um som da moléstia. Nenhum sino aqui de Olinda seria capaz de reproduzir um som como aquele. De lá para cá, não parei mais de falar e contar histórias.

Mas, se isso é verdade, como existem diversas entrevistas publicadas ao longo dos anos?

– Como eu não falava, eles inventavam tudo!

Enquanto diverte-se contado sua história passada e presente, além de muitos casos engraçados, o fotógrafo começa a disparar flashes e pegar os melhores ângulos para ilustrar a reportagem.

– Olha meu filho, fotos são R$ 1 cada, tá? E não fotografe as minhas pernas, as meninas podem ir ao delírio – brinca.

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