O poeta é sobrenaturá


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“O poeta é sobrenaturá”

Seg, 02 Mar, 06h14

(BR Press) – O poeta cearense Patativa do Assaré é tema do documentário Ave Poesia (Patativa of the Assaré – Bird Poetry, 2007). O filme aborda sua vida e a obra, destacando a relevância dos seus poemas, o significado político dos seus atos e a sua imensa contribuição à cultura brasileira.
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Dono de um ritmo poético de musicalidade única, mestre maior da arte da versificação e com um vocabulário que vai do dialeto da língua nordestina aos clássicos da língua portuguesa, Patativa do Assaré faz uma síntese do saber popular versus saber erudito. Ele é uma espécie de Ariano Suassuna do Ceará, unindo denúncia social e lirismo.

No ano de 2001, Patativa do Assaré foi escolhido como um dos mais importantes cearenses do século XX. A narrativa histórica e biográfica se inicia com o velório de Patativa do Assaré (2002) e, a partir daí, é contada a sua vida, com referências a acontecimentos pessoais e históricos.

A cronologia dos acontecimentos políticos e culturais brasileiros, bem como os fatos marcantes da vida do poeta, redimensionados pela mediação da sua poesia, é intercalada com depoimentos e análises críticas da sua obra, de forma a fornecer um panorama amplo e de compreensão profunda da poética patativiana e do universo da cultura popular.

Leia, a seguir, trechos da entrevista com o diretor Rosemberg Cariri Publicada originalmente no Portal Vermelho e concedida a Dalwton Moura, sobre as mais de 100 horas de material utilizado no filme – resultado de muitos anos de vivências e pesquisas, ao longo de 27 anos, constituindo um importante acervo.

Como foi a primeira dessas gravações com o Patativa, que resultou no filme?

Rosemberg Cariri – A primeira vez que filmamos foi em Assaré, por volta de 79, fotografado em super 8, pelo Jackson Bantim e o Luís Carlos Salatiel. Registramos o cotidiano dele, na roça, Dona Belinha cozinhando… Quando cheguei lá, era um amigo que estava chegando, era o filho de Zé Moura, que já tinha laços afetivos fortes. Passamos uma semana com ele dessa primeira vez, e o que me lembro era do cheiro do inverno na terra. O flamboyant, ele sentado naquela raiz, que virou quase um símbolo depois do Patativa, do homem enraizado.

Ao longo dos anos, foram tantas tentativas de apreender o que seria Patativa, pelo olhar sociológico, antropológico, político, lírico… De que forma você avaliou que faltava ele ser mostrado?

Rosemberg Cariri – Acho que o Patativa é isso mesmo e vai ser sempre assim: um poeta de uma grandeza tamanha que vai ter sempre múltiplas interpretações. A compreensão ecológica, o poeta extraordinário, de enorme sensibilidade no trato com a compreensão da alma humana, o cronista dos costumes do sertão… Há uma representação do Patativa, que é muito dura, concreta, de quem viveu aquilo tudo, mas há uma outra dimensão mais interna, de quem viveu dentro do sertão e teve o sertão dentro de si. Agora, uma dimensão pouco conhecida é a do Patativa religioso. Ele tinha noção, muito consciente, da grandeza da sua arte. Sempre se considerou, de certa forma, um instrumento de Deus. É como se fosse apenas um instrumento de uma vontade muito maior. “O poeta é sobrenaturá”… Daí a humildade.

Dentro de todas essas possibilidades, qual foi o seu critério para esse filme?

Rosemberg Cariri – Quando o Patativa morreu, eu estava viajando. E a notícia na mídia foi fria. “Patativa morreu”. Um poeta como Patativa não morre. Ele já estava num processo de transformação em mito. Eu pedi a um pessoal que documentasse o velório. Daí resolvi começar o filme com um redemoinho no sertão, até a poeira secar, como se fosse o espírito. E daí contamos a vida dele.

Que outros aspectos da vida dele estão presentes no filme?

Rosemberg Cariri -Tem um depoimento que ele fala da importância das crianças pra vida dele. E a partir daí passo pelas ligas camponesas, pelo movimento de luta pela reforma agrária. Consegui depoimentos de pessoas que estavam no Partido Comunista, falam sobre os jornais comunistas que ele lia. De certa forma, mostro um outro lado do Patativa que é um pouco nebuloso, essa ligação um pouco clandestina com o movimento sindical. Tem um momento dele dizendo que já tinha lido Marx. Isso não quer dizer muito, mas é curioso. Porque a poesia dele é maior que uma dimensão política no sentido doutrinário. A política dele é muito maior, o homem, a terra, o direito à felicidade. Era um socialista cristão.

Com todo interesse da mídia, Patativa certamente não ficou imune ao assédio. Como é que ele lidava com o fato de ter uma câmera à frente?

Rosemberg Cariri – Ele agia com muita naturalidade. Os nossos diálogos terminavam sendo conversas, e o que é interessante é que nessas conversas ele revelava muitas coisas, tanto sobre política, quanto coisas engraçadas, coisas sobre amigos… Agora, com relação à mídia, é tamanha sagacidade de Patativa, que ele sempre teve a mídia como instrumento. Eu não acho que Patativa foi usado pela mídia; acho que ele usou a mídia muito bem.

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