Benzedeiras: a cura pela fé


RETIRADO DO sítio O Diário de São Paulo

Terço e folha de arruda nas mãos, uma oração na ponta da língua. As benzedeiras, que surgiram no país com a chegada dos jesuítas, no século XVI, são figuras presentes na cultura popular até hoje. Aos 77 anos, dona Amara Damaceno faz parte dessa história. Ela já fez simpatias até para curar o alcoolismo do filho, missão cumprida há menos de um mês.

Por isso mesmo, Amara é a primeira personagem da série “Benzedeiras: a cura pela fé”, que o DIÁRIO inicia hoje. Pernambucana de Igarassu, na Grande Recife, ela tem até hoje o sotaque forte e as marcas de quem cresceu no interior.

Negra de olhos fundos, Amara tem mãos ásperas, esculpidas por anos de trabalho no campo e cuidando de 23 filhos e nove netos. Não à toa, ela tem dificuldade para lembrar o nome de todos. Só sabe que engravidou pela primeira vez aos 14 anos e que todo ano nascia outro filho. Viúva há 13 anos, fala com humor sobre o falecido marido. “Ele reclamava de falta de ar. Mas não tinha isso pra fazer filho”, conta.

O sorriso fácil contrasta com a vida sofrida da senhora que morava num barraco de tijolo com telhado de barro e saiu de Pernambuco há quatro anos para um casebre em Várzea Paulista, a 62 quilômetros de São Paulo, com dois filhos, dois netos e um bisneto. A mudança aconteceu depois de uma briga com um neto, que abusou da irmã pequena. “Peguei ele pelo pescoço e disse: ‘Cabra safado’!” Para ilustrar a cena, ela agarra um familiar pelo pescoço, provocando risos na casa. Depois do incidente, dona Amara começou a rezar para pedir ajuda seguindo um ritual. As orações eram feitas todo dia 18 do mês, às 20h. Começava a surgir ali uma benzedeira.

O neto molestador, hoje com 18 anos, está preso. Já o filho alcoólatra, José Carlos Damaceno, de 35 anos, largou a cachaça há três semanas, também pela força da fé da mãe. Mergulhado no vício Na tarde em que o DIÁRIO visitou a benzedeira, no fim de maio, ele ainda estava mergulhado no vício. Quando chegou em casa, balançou, como se precisasse da destreza de um equilibrista para se manter em pé. Com as mãos apoiadas na porta, o corpo ia para frente e para trás. O olhar estava fixo em algum ponto da parede. Antes de entrar, pediu a bênção para a mãe. “Jesus te ilumine, meu filho”, respondeu dona Amara, séria.

Em seguida, José Carlos caminhou em zigue-zague e sentou no sofá, infestando o lugar com o cheiro de aguardente. Disse que veio de Pernambuco para morar com a mãe porque passava fome. A viagem de ônibus durou quatro dias. “Não vou mentir, bebi cachaça todo dia”.

Na época, dona Amara tratava os seus porres com mingau de cabeça de galo, que, segundo ela, “levanta até morto”. O preparo levava alho, pimenta, sal, farinha e água. “Cachaça é tentação do demônio. Ele deixou de beber com medo da morte. A pior vida do mundo é melhor que morrer”.

Dona Amara só sabe escrever o nome. Mas traz a sabedoria de quem já arrancou dentes e fez partos. “Antigamente não tinha médico”, explica a benzedeira, que guarda na memória dezenas de orações e simpatias. O repertório inclui a receita de leite de cabra com creolina para hemorróidas e simpatias para afastar olho gordo, cansaço e dor de barriga. O vasto conhecimento de curas despertou o interesse da vizinhança. Todo dia chega alguém para se benzer.

Não há hora marcada para os atendimentos . O aposentado Edvaldo dos Santos, de 59 anos, é uma dessas pessoas. Ele senta numa cadeira para o benzimento. Com os olhos fechados, a benzedeira começa a rezar. Enquanto segura terço e folha de arruda na mão direita, ela pede proteção, erguendo os braços. “Uma vez, ele estava com dor no estômago. Depois, já puxava trator pelos dedos”, exagera.

Como na maioria das histórias de benzedeiras, dona Amara aprendeu o ofício de curar males do corpo e da alma em casa. Sua mãe não queria que a filha seguisse seus passos. “Ela dizia que benzedeira fica com peso nas costas”, lembra. Com a morte da mãe, há 30 anos, dona Amara também enterrou seus conselhos, assumindo a condição de benzedeira da família. Hoje, a foto da matriarca está pendurada na sala, como uma proteção para a filha que usa as mãos para salvar os outros.

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