Gilvan Samico: Do Desenho à Gravura


RETIRADO DO saite www.vermelho.org.br

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A obra de Gilvan Samico é como um desses pavões que abrem a cauda e enchem os olhos de luz. Mas até chegar à experiência substancial da claridade e da cor, vista nas suas gravuras a partir dos anos 60, Samico desenhou muito, quase obsessivamente, e fez gravuras, ainda na década de 50, em que trabalhava com perspectiva sustentada na linha branca, de fundo preto.

Confira galeria com imagens de obras do artista pernambucano

Samico começou no Recife e logo chegou a São Paulo, nos anos 50, para estudar gravura com o mestre Lívio Abramo (1903-1992). Seguiu para o Rio e foi recebido por Oswaldo Goeldi (1895-1961), da Escola Nacional de Belas Artes. Estava quase artista pronto no início da década de 60, mas uma conversa com Ariano Suassuna é que lhe mudaria o rumo e a temática da obra. Passa a interpretar um universo sertanejo e mítico, como atestam alguns títulos de suas gravuras: “Juvenal e o Dragão” (1962), “O Boi Feiticeiro e o Cavalo Misterioso” (1963). Foi incluído no Movimento Armorial por Ariano Suassuna sem ele saber.

Leia trechos de entrevista feita em 2008 com o artista plástico pelo Jornal do Comércio:

Jornal do Commercio: Você se considera um artista reconhecido e bem remunerado entre seus conterrâneos? 

Gilvan Samico: Acho que sou remunerado merecidamente. Reconhecimento acho que já existe há algum tempo, mas o fato de eu ver uma exposição como essa na terra em que nasci me deixa muito feliz. Acho que uma retrospectiva desse porte é como uma prestação de contas. Um saldo do meu trabalho até agora. Era um desejo meio bairrista…

Jornal do Commercio: Afinal, o pernambucano é bairrista?

Samico: O pernambucano, o baiano, o carioca. Pergunte a um carioca qual a cidade mais bonita do mundo. Ele vai dizer que é o Rio de Janeiro. Eu também acho o Rio uma cidade muito bonita, e nem sou de lá. Agora, se você me perguntar, vou dizer que o Recife é muito bonita também. Já foi mais, muito mais. Hoje a cidade está estraçalhada. A arquitetura moderna não soube se integrar aos nossos casarões antigos. Os novos prédios do Recife agridem a paisagem. A Rua da Aurora é um exemplo disso. Mas, apesar de tudo, ainda acho o Recife uma cidade bela.

Jornal do Commercio: No Rio, você trabalhou no escritório de design de Aloísio Magalhães. A comunicação visual influenciou ao seu trabalho?

Samico: Eu era um instrumento do escritório, um arte-finalista, não era o criador. Acho que já fui trabalhar lá porque sou, com o meu trabalho, por natureza, muito disciplinado. Claro que há coisas misteriosas na criação de uma artista e nem sempre a gente consegue dizer de onde vem a influência. Esses convites que são feitos de maneira sutil vão somando coisas na produção da gente, desde que se esteja receptivo, claro. O fato de eu ter trabalhado com Aloísio era porque ele precisava de um desenhista com o traço preciso, justo, com bom acabamento. Acho que deu uma contribuição para meu trabalho, mas eu, por mim mesmo, já tinha esse sentido de ser muito cuidadoso com a finalização e acabamento do que fazia.

Jornal do Commercio: Suas gravuras têm essa característica. São feitas com uma habilidade técnica muito apurada…

Samico: Habilidoso? Não gosto dessa palavra, “habilidoso”. Tenho receio de usá-la. Fica parecendo que a pessoa domina apenas a técnica, que não é uma artista completo.

Jornal do Commercio: Com essa recusa do termo “habilidoso” você quer dizer que a técnica bem apurada não é a parte mais importante de seu trabalho?

Samico: Uma gravura minha não acontece por acaso. Trabalho muito antes de definir a composição. Não existe essa coisa de inspiração. Nunca achei uma musa (risos). Faço 10, até 15 estudos. Não é fácil. São pequenas coisas que vão mudando. Não é um trabalho 100% racional, nem 100% espontâneo. Mistura o inconsciente e o consciente, é um acordo entre os dois.

Jornal do Commercio: Em quê você pensa quando está criando, quais são seus objetivos?

Samico: Construir projeto para uma gravura. Os elementos podem nascer de pequenas coisas. Penso num elemento, que vai dar origem a todo o resto. Depois, surgem as peças que serão colocadas no entorno desse elemento, que gerou todo o projeto da composição.

Jornal do Commercio: Qual sua fonte de pesquisa?

Samico: Essa história longa. Mas onde busquei minha fonte maior de pesquisa foi no cordel – mais nas histórias do que nas gravuras das capas, diga-se. O que me interessa são as lendas, as narrativas contadas, não queria reproduzir a estética dos gravadores populares, porque eu não sou um artista popular. Mas não fui para o cordel sozinho. Isso faz parte das minhas conversas com meu amigo Ariano Suassuna, no início da década de 60. Na época, eu dizia que não estava satisfeito com os rumos que minha gravura estava tomando. Achava que ela estava ficando muito parecida com as gravuras de fora. Então, foi Ariano que me chamou a atenção para esse universo popular. Ao mesmo tempo fiquei fascinado e medroso. Como é que eu ia lidar com isso? Meu maior desafio foi saber como trabalhar com essa linguagem. E foi aí que surgiu minha linguagem.

Jornal do Commercio: Num dos ensaios do catálogo, Fernando Morais afirma que você tem medo de perder a identidade? Por quê?

Samico: Medo de derrapar. Não sou experimentalista. Tenho linguagem conquistada com esforço muito grande. Tenho medo de receber influências que modifiquem minha arte.

Jornal do Commercio: Você se dedica a obtenção de bons resultados nos dois aspectos de seu trabalho: conteúdo e técnica…

Samico: Sim. A carga expressiva para mim é muito importante. E a técnica tem que ter qualidade, tem que ser bem feita. Mas não quero que o resultado da minha obra seja o “bonitinho”. A beleza de minhas gravuras está no todo da obra. Recuso o “bonitinho”.

Jornal do Commercio: Sua arte é sempre considerada meio mística, filosófica, religiosa. Que adjetivos você aplicaria ao seu trabalho?

Samico: É muito difícil. Claro que não se pode desligar uma coisa da outra: a intenção e o resultado. Há um caráter intencional nos desenhos que faço. Não diria filosofia, porque compreende mais outros aspectos do conhecimento humano. Mas, uso sempre o simbolismo do bem e do mal. Os contrastes das minhas gravuras expressam uma dicotomia, o claro e o escuro, o dia e a noite. Este é um elemento recorrente na minha obra.

Jornal do Commercio: Que outras características você atribui a sua obra?

Samico: Ela é otimista. Não pretendo fazer com ela nenhuma panfletagem. Há também uma certa religiosidade, não obrigatóriamente em alguma direção, mas elementos simbólicos religiosos e até pagãos. Os elementos que coloco na gravura – o peixe, a serpente – têm forte carga simbólica, embora eu nem queira saber o que significam. Tenho um livro de Jung, mas nunca abri. Não leio para não ficar influenciado.

O artista Gilvan Samico

Suas primeiras incursões no campo da arte foram no terreno pintura. As relações entre a arte de Gilvan Samico e a realidade brasileira são fáceis de perceber. É o Nordeste que o inspira, o Nordeste visto por meio das gravuras que ilustram os cancioneiros populares, acrescido da expressão erudita e do fantástico de sua imaginação poderosa e mórbida que mescla caboclos, santos, monstros, diabos e estranhas aves de rapina.

Os trabalhos de Gilvan Samico, selecionados pela curadoria para a mostra paralela de desenho e pintura, foram as últimas quinze gravuras realizadas pelo artista, produzidas entre 1983 e 1997.

Disposto a criar e lançar apenas uma gravura por ano, terá na exposição uma obra representante de cada ano. O universo pictórico de Samico remete às figuras primitivas, à cultura popular e especialmente ao imaginário do povo nordestino.

Lançado na cena plástica pernambucana pela Sociedade de Arte Moderna, nos anos 40, Gilvan Samico já correu o país com seus desenhos, pinturas e gravuras. Morou em São Paulo, no Rio de Janeiro e, na volta, meados de 1965, fixou-se definitivamente em Olinda.

“Samico fez a tradução plástica da quintessência do pensamento armorial”, filosofam os organizadores. Para eles, do trabalho do gravador recifense derivam imagens nítidas, ricas em sugestões simbólicas. “Surpreendem pela aparente simplicidade, pelo modo como a um só tempo fincam-se no chão agreste, para se elevarem e alimentarem nossa sensibilidade”, completam.

Depoimentos 

Confira abaixo depoimentos de Gilvan Samico e Tânia Nogueira:

“Em 1957 fui para São Paulo estudar gravura com Lívio Abramo. Depois me mudei para o Rio de Janeiro e, lá, fiz algumas gravuras para participar de salões. Nessa época, em uma visita ao Recife, reencontrei Ariano Suassuna e disse a ele que achava que minha gravura parecia com coisas que eu já tinha visto, era muito noturna, muito ligada à gravura européia. . . Então, ele me perguntou: ‘Por que você não dá um mergulho na gravura popular?’ Eu enlouqueci. Senti como se fosse um desafio danado. Ia fazer o quê? Uma transposição da gravura popular? Não interessava. Fiquei um pouco aturdido, mas não desisti. Em vez de ir para a gravura pronta, ou a capa de folheto ou outra coisa qualquer, resolvi ir ao texto da literatura de cordel. Para fazer o que era para fazer mesmo: a gravura de ilustração. Aliás, a gravura nasceu para isso. Historicamente, ela sempre, ou quase sempre, teve esse papel: contar uma história. (…)

Goeldi gravava a linha branca. A maioria dos gravadores de cordel grava a linha preta. A partir de certo momento, começa a se evidenciar a linha preta em minhas gravuras. Você não está mais mergulhado na sombra. Você poderia encontrar essa gravura num cordel, se ele tivesse esse tipo de preocupação formal. Não encontra, porque quem fez fui eu. Tem crítico que diz que a matriz de minha obra é muito mais antiga do que o cordel. (…)

Tem gente aqui que pergunta qual é o meu encantamento pela arte egípcia, porque vê na minha gravura influências egípcias. Eu não tenho nada a dizer. A não ser que isso faz parte da minha vivência, do Inconsciente coletivo, sei lá. É como se fossem histórias antigas se repetindo nos genes até chegar a mim. Um crítico disse que a minha gravura hoje está impregnada dos símbolos essenciais da cultura popular. Acho que ele está certo”.

Exposição

Muitas ds obras do autor já exibidas em mostras valorizam uma linguagem brasileira, inspirada na literatura de cordel e suas ressonâncias medievais. Entre essas, destaca-se Comedor de folhas (1962), início do rompimento com a escala naturalista.

“Ao fazê-la, me lembrei de Ananias, um louco manso desse ambiente em que vivia. Ele passava pelo campo, abaixava, tirava tufos de grama e saía comendo”, conta. Por aquele tipo de operação milagrosa que só os grandes artistas sabem fazer uso, Ananias ganhou uma estatura mítica.

Assim como os cavaleiros de espadas flamejantes, os malabaristas austeros, as sereias em forma de múmia e todo o bestiário que ele traz de volta dos tempos imemoriais. Afinal, de onde vêm todos estes símbolos? “Quando os faço, estou inventando, criando. Elaboro coisas que não conheço e vão adquirindo forma.” Obcecado pelos espelhos e pelos duplos, Gilvan Samico só tem certeza do gesto inaugural de cada obra: uma linha contínua no meio do papel em branco, demarcando dois planos, dois mundos.

Frederico Morais

O curador de mostras, crítico e historiador de arte Frederico Morais também comenta a obra de Samico:

“Nas duas últimas décadas, Samico raramente produziu mais que uma única gravura por ano. É um artista raro. Em seu monástico casarão de Olinda, pesquisa longamente cada um dos seus temas e os signos correspondentes. Estuda exaustivamente a compartimentação do espaço e sua relação com os tempos da narrativa. Bosqueja, faz croquis a lápis ou tinta, buscando a cor precisa, a ser posta em confronto com as chapadas de preto e com o branco, que funciona como luz ou espaço. Exercita com a goiva toda uma variedade de cortes até encontrar a textura ideal para o assunto tratado, a tonalidade exata.

O tempo escorre, lento, na província afetiva do artista.

Gravar pede paciência e muito ofício. Samico não é virtuose – não sou um habilidoso, costuma dizer – por isso age empiricamente, na base do erro e do acerto. Mas, concluída a obra, aposta sua assinatura, teremos com certeza, diante de nós, uma obra de arte irretocável e de uma beleza arrebatadora. (…) Samico equilibra, em doses certas, imaginação e despojamento, fantasia e técnica”.

Pesquisa de texto, entrevista e imagens.
Autorização do artista,
por Selenia Granja.

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