Viola Caipira e Música Erudita


RETIRADO DO SITE Idéias Online

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Viola Caipira e Música Erudita

Leia entrevista que Cristiano Bastos, da Rolling Stone Brasil, fez com o violeiro Roberto Corrêa, sobre o encontro da viola caipira com a música erudita. Assista também ao vídeo de Ná Ozzetti e Dú Gomide, do projeto Êta Nóis. O último show da série acontece neste sábado, 16h, no Patriarca, com AlziraE e Zé Helder.

Ná Ozzetti. Foto: divulgação

O violeiro Roberto Corrêa está lançando seu novo álbum, Viola de Arame – Composições Brasileiras, no qual interpreta obras escritas especialmente para a viola caipira solo. Também está fazendo a curadoria do Festival Voa Viola, que realiza junto com violeiro Paulo Freire. Paralelo a estas atividades, Corrêa finaliza seu doutoramento em Musicologia pela USP e prepara o DVD de seu livro-método de viola A Arte de Pontear Viola.

O violeiro concedeu essa entrevista especial para falar sobre o encontro entre a viola caipira e a música erudita.

Pra você, qual a interseção entre viola caipira e música erudita? Como opostos tão diferentes, à primeira vista, podem se tocar?
Roberto Corrêa
Roberto Corrêa / Divulgação

Corrêa – Acredito que esta fronteira entre música instrumental brasileira e música erudita já não existe mais. À medida que a viola evoluiu como instrumento solista, tecnicamente mais trabalhos estão podendo ser feitos neste sentido. Hoje já temos alguns trabalhos importantes de viola em diálogo com a música erudita. Para citar um exemplo, do qual estou bem próximo, a Orquestra do Estado de Mato Grosso, sob a regência do maestro Leandro Carvalho, tem um naipe de violas de cocho e realiza um trabalho de fusão do popular com o erudito de maneira bem natural. Participei como solista de um de seus discos, no qual estreamos o Concertino para Viola de Cocho e Orquestra de Ernst Mahle, um compositor brasileiro de música erudita. Gravamos ainda um outro disco, em fase de acabamento, onde vários arranjadores brasileiros se debruçaram sobre a obra de Flausino Valle e escreveram para a Orquestra, tendo como instrumentos solistas o violino, a viola de cocho e a viola caipira.

De que forma podemos reconhecer, na história, tal relação? Quais exemplos você citaria dessa fusão erudito/caipira? 

Corrêa – No início da década de 1960, o compositor erudito Ascendino Theodoro Nogueira escreveu sete prelúdios para viola solo e um Concertino para a viola e orquestra. Foi a primeira escrita para a viola de cinco ordens de cordas no Brasil. Esta obra foi gravada em 1964 pelo violonista clássico Carlos Barbosa Lima, tocando em uma viola caipira construída nos moldes das violas tradicionais. Vinte anos depois, nas décadas de 1980 e 1990, surgem trabalhos de violeiros buscando compreender as referências tradicionais do instrumento, ao mesmo tempo em que investem no seu desenvolvimento técnico de forma geral — performances, composições e construção do instrumento. Penso que este movimento se dá de forma ampla e livre. A viola está buscando todos os diálogos possíveis e a aproximação com a música clássica me parece bastante natural, uma vez que está se fazendo uma moderna música brasileira.

Na contracapa de seu livro A Arte de Pontear Viola, o crítico Tárik de Souza diz que você “ponteia com erudição sua assumida viola caipira na pele de um Guimarães Rosa encordoado”. Comente.

Corrêa – É o trecho de uma crítica que Tárik de Souza fez ao CD Uróboro, que lancei em 1994, com minhas composições solo para a viola caipira e para a viola de cocho. Neste álbum, com 21 composições, eu apresentava uma forma diferente de se fazer música com a viola. Como observou bem o Tárik, ali estava a viola “assumidamente caipira” mas também estava um compositor e intérprete que, pela técnica e linguagem musical, poderia ser considerado erudito. Não escolhi ser caipira, nem erudito. Sou caipira por origem e estudo muito para poder fazer a minha música, para a qual não vejo limites. Não há fronteiras entre a viola e a música tida como erudita. Há, sim, a expansão dos conhecimentos, das técnicas e das expressões da viola para além das amarras que a prendia exclusivamente a estilos de música ligados à cultura popular.  O compositor Theodoro Nogueira já indicava isto no início da década de 1960, mas seu trabalho não teve, na época, a repercussão merecida.

Geraldo Ribeiro, em 1971, gravou as transcrições de Theodoro Nogueira de peças de Bach na viola brasileira. A partir daí emergiram violeiros da nova geração flertando com outros estilos: Cacai Nunes com o choro, João Paulo Amaral com o jazz, Fernando Deghi com a música ibérica, Miltinho Edilberto com o forró, Ricardo Vignini com o rock, etc. A música de viola é, portanto, “adaptável” a todos os gêneros, especialmente os brasileiros? 

Corrêa – A viola é um instrumento que permite “experimentações”, um instrumento com uma sonoridade encantadora e, no meu modo de entender, o principal instrumento da música brasileira.

Ela chegou ao Brasil já no início da colonização e era o instrumento que acompanhava as cantorias e as devoções de nosso povo. Lembrando que o violão só chegou ao Brasil no início do século dezenove, a viola está arraigada nas diversas manifestações musicais de nosso povo desde o início do período colonial.

O que acontece é que hoje está havendo, por todo o país, um movimento musical muito forte e expressivo com a viola. Na curadoria do Festival Voa Viola temos oportunidade de conhecer muitos trabalhos e estamos impressionados com a qualidade e a diversidade. O festival se propõe a, exatamente, traçar este panorama de qualidade e diversidade. E o que chama a atenção é que os variados tipos de violas estão merecendo a atenção de jovens músicos. Assim a viola de cantoria do nordeste, a viola machete do recôncavo baiano, a viola de cocho do pantanal mato-grossense, a viola de fandango do litoral sul, a viola de buriti de Tocantins e a viola caipira estão em evidência; servindo para a música tradicional e para a moderna música de viola.

Dentro desse caldeirão, a música erudita – de tradição europeia – serve também de inspiração para o incrível mundo novo da viola. E, logicamente, o caminho inverso também. Na história da música erudita foram vários momentos em que compositores buscaram na produção folclórica base e inspiração para seu trabalho. Na Europa, o compositor húngaro Béla Bartok, por exemplo, que viajou pelo interior de seu país gravando em um cilindro fonográfico impressões sonoras do povo rural. Ou no Brasil mesmo, com o próprio Villa-Lobos que bebeu do choro e das imagens rurais brasileiras. A profundidade dessa imersão ainda é controversa, mas o fato é que uma das melodias mais queridas dos violeiros é o tema do Trenzinho do Caipira – último movimento da Bachianas nº 2. Como isso foi possível? 

Corrêa – Este movimento da Bachianas nº 2 de Villa-Lobos é genial. O tema é primoroso, uma melodia que nos remete à simplicidade do povo interiorano; e a orquestração, uma narrativa musical de uma viagem de um trem Maria-Fumaça, extremamente original. Villa-Lobos é uma referência muito importante para a música brasileira. Talvez, para os violeiros atuais, seu trabalho tenha uma inspiração especial, por esta proximidade com as tradições populares. Meu arranjo do Trenzinho Caipira veio de uma encomenda do produtor J.C. Botezelli, o Pelão, em 1987. Ele estava produzindo o LP Villa-Lobos por Solistas Brasileiros, onde instrumentistas da música popular interpretavam músicas de Villa-Lobos. Foi uma experiência muito gratificante para mim pois gravei este arranjo em vários discos e até hoje a incluo em meu repertório.

Cristiano Bastos
Repórter especial da revista Rolling Stone Brasil,
diretor do road-doc Nas Paredes da Pedra Encantada (veja o trailler:http://youtu.be/1LvQD5O8v24), sobre o álbum Paêbirú – Caminho da Montanha do Sol (1975), considerado o LP mais caro e raro do Brasil, cuja sonoridade é, aliás, toda baseada no encontro da viola de 12 com o tricórdio, também conhecida como a “cítara popular marroquina”.

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