Da Bahia, caretas e zambiapunga


RETIRADO DO BLOG do sr. Luis Nassif

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Por Josias Pires
Comentário ao post “Da Bahia, caretas e zambiapunga

O mundo de mistério e espanto dos caretas e do zambiapunga é o tema deste documentário da série Bahia Singular e Plural. Careta é o nome dado à máscara e, por extensão, ao mascarado que participa, não só do Carnaval, como de outras festas populares da Bahia. E zambiapunga é um grupo de caretas, que faz um cortejo de madrugada, dançando e acordando a cidade com um som atordoante, tirado de enxadas, tambores, cuícas e búzios.

O zambiapunga é uma herança africana. Ele chegou à Bahia trazido pelos negros bantos, escravizados na região do Congo-Angola e usados na Bahia para o incremento de atividades agrícolas, plantio de canaviais do Recôncavo e de grandes extensões de dendezeiros na região do litoral Baixo-Sul. É exatamente nesta região onde se concentra o zambiapunga, um folguedo que não existe em nenhum outro lugar do Brasil. Na África, até hoje há festas de mascarados com este mesmo nome, feitas para homenagear os ancestrais.

O documentário registra os cortejos dos zambiapungas das cidades de Nilo Peçanha, Taperoá e Cairu. Os dois primeiros vão para as ruas na madrugada do dia 1º de novembro. E o zambiapunga de Cairu sai também de madrugada, só que no domingo da festa de Nossa Senhora do Rosário, padroeira da cidade. Foi gravado também um depoimento do último líder do zambiapunga de Valença, grupo que parou de sair na data tradicional (31 de dezembro) há mais de 20 anos.

O zambiapunga de Nilo Peçanha é um dos grupos de cultura popular tradicional mais estruturados da Bahia. Ele tem uma sede construída com recursos próprios, obtidos com apresentações feitas fora de Nilo Peçanha. Algumas dessas apresentações obtiveram repercussão internacional, como a que o grupo fez no Rio de Janeiro, na ECO-92; e em Salvador, para a versão 1998 do Perc-pan, evento que reúne percussionistas de todo o mundo.

As imagens de outros caretas que aparecem no programa foram gravadas, principalmente, no povoado de Acupe, distrito de Santo Amaro da Purificação, e na cidade de Saubara. Nestas duas localidades, nos domingos do mês de julho, uma grande quantidade de mascarados saem às ruas para divertir a comunidade e assustar as crianças. As caretas encarnam o mesmo espírito do lobisomem, da mula-sem-cabeça, da caipora, das histórias do bicho-papão, que assustam e devoram crianças desobedientes.

As máscaras tradicionais de Acupe e Saubara são feitas de papel machê e papelão e criadas por artesãos locais. Nestas localidades encontram-se uma grande quantidade de máscaras de borracha. Foram registradas também outras máscaras comuns em algumas cidades do Recôncavo, como os mandus, os bombachos, as cabeçorras e os capa-bodes.

Além de documentar as manifestações dos caretas em cidades do interior da Bahia, o documentário apresenta também depoimentos da professora Yeda Pessoa de Castro, especialista em línguas africanas. Ela morou na África durante quase uma década, oportunidade em que conheceu a festa do zambiapunga entre os “yaka”, uma variante étnica dos bacongo. Foi entrevistado também o professor Armindo Bião, da Escola de Teatro da UFBa, que realiza pesquisas sobre o uso de máscaras no teatro.
As máscaras estão em todas as civilizações, desde os tempos mais remotos. O homem da Antigüidade pode ter criado a máscara para ir além do limite humano e se aproximar, ao mesmo tempo, da natureza e do sobrenatural. Usando máscaras, feitas com os mais diferentes tipos de materiais, os homens incorporam entidades do bem e do mal; imitam animais de verdade; e se transformam em seres fantásticos.

A presença de mascarados nas festas populares da Bahia remonta, pelo menos, ao século XVII. O poeta Gregório de Matos chegou a escrever um poema atendendo ao pedido dos festeiros da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, em Salvador, que queriam a licença do governador de então para usar máscaras na festa.

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