Sobre os Mastros Sagrados e Profanos


RETIRADO DO BLOG DO sr. Luis Nassif

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MASTROS SAGRADOS E PROFANOS

Por Josias Pires

Um grupo de homens vai até uma floresta próxima de uma área urbana, derruba uma grande árvore, arrasta o tronco até a praça da cidade, transforma esse tronco num mastro, finca no topo do mastro a bandeira do santo padroeiro e ergue este mastro diante da igreja — este é um breve resumo de um ritual típico da puxada do mastro, uma das mais surpreendentes manifestações da cultura popular tradicional da Bahia.

O documentário registra passo a passo a puxada do mastro de São Sebastião, realizada anualmente na primeira quinzena do mês de janeiro na estância hidromineral de Olivença, município de Ilhéus. Meses depois, foi documentado o mastro do Divino Espírito Santo, na cidade de Andaraí, Chapada Diamantina, onde a puxada do mastro recebe o curioso nome de Rabeia. O documentário inclui também outra manifestação relacionada com mastros de santos, que é o trança-fitas ou pau-de-fitas, como se vê nas cidades de Rio de Contas, Utinga e Andaraí.

Festas em torno de mastros enfeitados são um costume milenar. Na Antiguidade, fincar um mastro — geralmente um tronco de árvore — num determinado lugar, fazia parte dos rituais de consagração do território. Esses rituais deram origem às chamadas “árvores de maio” européias, quando se dançava e cantava em torno de árvores enfeitadas para saudar o espírito frutificante da vegetação. As “árvores de maio” se transformaram em brincadeiras como os “paus-de-fitas” ou “trança-fitas” e também nos mastros com bandeiras de santos, erguidos diante de templos cristãos.

Esses costumes foram trazidos para o Brasil, onde também existiam rituais e jogos indígenas com toras de madeira, chamado “corrida de toras”: os índios cortavam árvores na floresta, carregavam as toras nos ombros até a entrada de suas aldeias e ali uma das árvores era fincada no solo. Em Olivença, como em vários outros municípios do Sul e Extremo-Sul da Bahia, a corrida de toras foi transformada pelos jesuítas na festa do mastro com a bandeira de São Sebastião, a fim de atrair os nativos para o cristianismo. Ainda hoje a festa guarda elementos da tradição indígena. Até a década de sessenta a puxada do mastro era realizada no dia seis de janeiro, dia de Santos Reis e atualmente a festa é realizada no segundo domingo do mês de janeiro. No dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião, acontece a substituição do mastro fincado no ano anterior por um mastro novo.

A árvore que foi transformada no mastro de São Sebastião, em Olivença, era um oitizeiro de mais de vinte metros de altura, cujo peso foi estimado pelos festeiros em mais de dois mil quilos. O tempo necessário para cortar a árvore e fazer o percurso de seis quilômetros entre a floresta e a praça de Olivença foi de quase quinze horas e mobilizou centenas de pessoas. A árvore é puxada por meio de uma corda de quase duzentos metros de comprimento. Durante todo o percurso, uma espécie de banda de pífanos acompanha o esforço hercúleo realizado pelas pessoas que vão cortar a árvore e puxar o mastro.

Já em Andaraí a árvore é levada da floresta para a cidade num caminhão. O grande momento da festa acontece durante a noite, depois do tronco ter sido enfeitado com flores e folhas durante o dia. Dezenas de pessoas jogam o mastro nos ombros e conduzem-no até a praça da igreja. Durante o cortejo ele fazem diferentes evoluções com o madeiro, incluindo um giro de 360 graus que exige um grande esforço de coordenação em meio a um clima de aparente descontrole e euforia dos manifestantes.

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