Rezadeira da festa em Mogi


RETIRADO DO SITE G1 de Mogi e Suzano

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‘Tenho fé porque o Divino me deu a vida’, diz rezadeira da festa em Mogi
Senhora de 70 anos ajuda na Festa do Divino Espiríto Santo na cidade.
Histórias de fé e devoção fazem parte da vida de Dona Albertina.

Do G1 de Mogi das Cruzes e Suzano

Dona Albertina prepara a cesta que vai dar de presente para uma de suas netas. (Foto: Jenifer Carpani/G1)
Dona Albertina prepara a cesta que vai dar de presente para uma de suas netas. (Foto: Jenifer Carpani/G1)

Com um facão na mão, sentada no quintal de sua casa feita de pau a pique, Albertina Maria Ferreira, de 70 anos, desfiava com destreza os restos do bambu que recolheu na propriedade onde mora. A idade já avançada contrastava com a agilidade de seus dedos. Logo em seguida ela soltava o facão e segurava com os pés os pequenos talhos de bambu que resultariam em uma cesta. O objeto, quando terminado, seria dado de presente para uma das netas. “É para elas trazerem uvas para casa, senão as frutinhas ficam tudo amassadas”, explicou.

Sorridente, Dona Albertina vai de um assunto a outro conforme vai se lembrando, e fala de sua fé com a naturalidade de quem fala de uma velha conhecida. “Tenho fé sim, tenho fé porque o Divino me deu a vida, e eu amo o Divino Espírito Santo de coração”, conta. Segundo ela, quando já estava ‘velha’ – mas não sabe precisar há quantos anos – ela sofria do coração e tinha água nos pulmões. “Foi o Divino quem me salvou”, garante.

Mas a devoção vem de muito antes. “Desde pequena acompanho o Divino Espírito Santo. Meu pai, que era rezadeiro já fazia parte, e eu continuei”. Hoje, Dona Albertina é uma das voluntárias que ajudam na tradicional Festa do Divino Espírito Santo, em Mogi das Cruzes, na Região Metropolitana de São Paulo. “Ajudo descascando batata, doando frutas e participando da Entrada dos Palmitos”, conta.

Profissão de fé
A fé move montanhas, e move também Dona Albertina, que duas vezes por ano vai a pé para a Basílica de Aparecida do Norte, no interior de São Paulo. “Levo cerca de três dias pela [Rodovia Presidente] Dutra, mas se for pela [Rodovia] Carvalho Pinto aí leva quatro dias”, ressalta, explicando ainda, com detalhes, onde dorme em cada noite que passa na estrada. “Uma vez, cheguei atrasada no encontro em Aparecida porque vi um corvo tentando matar um bezerro. Comecei a ‘tacar’ pedra para salvar o bezerro e consegui”, se orgulha. “Ganhei inclusive uma homenagem por salvar o bezerro. Ganhei uma Nossa Senhora Aparecida grande assim”, relata mostrando com as mãos o tamanho da santa que recebeu.

“Tenho fé sim, tenho fé porque o Divino me deu a vida, e eu amo o Divino Espírito Santo de coração” – Dona Albertina Maria Ferreira

A crença virou trabalho e a alegre senhora – mãe de cinco filhos, doze netos e um bisneto – é conhecida como a “rezadeira”, porque esta passou a ser sua profissão. Nos arredores da casa onde vive há 16 anos, na serra do Itapeti, todos ali a conhecem, mas sua fama ultrapassa também limites de bairros e cidades. “Às vezes vou para outras cidades rezar. Agora estou fazendo uma novena para uma moça que me pediu. Os filhos dela foram presos”, relata enquanto começa a trançar agilmente os pedaços de bambus para finalizar sua cesta.

Dona Albertina conta que a doação de frutas e verduras para a festa que homenageia o Divino Espírito Santo acontece graças às suas rezas. “O pessoal pergunta se eu quero as frutas e eu aceito, vou buscar quando está próximo da festa”, sorri.

Palmitos, danças e bois
Mas a participação da família de Dona Albertina na Festa do Divino vai muito além. Uma de suas filhas, Silvana Ferreira, diz que todos se envolvem na preparação da festa. “A Entrada dos Palmitos na verdade é um desfile de carros de boi”. Ela conta que é responsável por ajudar a organizar quantos carros de boi participarão da festa. “Apesar da festa ser em maio, já estamos anotando quem serão os carreiros para a entrada [dos palmitos] e quantos bois cada um vai levar”.

Animais têm trânsito livre pelo quintal da casa de Dona Albertina. (Foto: Jenifer Carpani/G1)
Animais têm trânsito livre pelo quintal da casa de Dona Albertina. (Foto: Jenifer Carpani/G1)

Cabras, bodes e cavalos têm livre arbítrio no quintal, e fazem o percurso que bem entendem por ali. Chamados pelas crianças com apelidos como ‘cabra veia’, descansam na mesma sombra feita pelo telhado onde Dona Albertina continuou trançando e dando forma à sua cesta. Lembrando dos episódios de sua vida, a senhora conta até mesmo que ‘já morreu’. “Em setembro do ano passado, um pessoal que eu não via faz um tempinho começou a se reunir para rezar por mim porque eles achavam que eu tinha morrido”, disse. Ela conta que o episódio foi um mal entendido pois quem faleceu foi uma colega dela. “No final, eu fiquei contente, porque se eles estão rezando por mim é porque gostam de mim”.

A cesta ficou pronta cerca de uma hora depois. Foi quando também ficou pronto o cafézinho que Silvana preparou para a reportagem do G1 durante a visita. “Vocês não vão embora sem tomar um cafézinho”, avisou Dona Albertina. Dito e feito, e o café foi passado junto com bolachas que as netas, prestativas, serviam. Depois de tantas histórias de fé, Dona Albertina avisa que sua presença é garantida na Festa do Divino Espírito Santo. O único problema é que ela só não se decidiu ainda onde vai desfilar na Entrada dos Palmitos. “Já desfilei no grupo de afrodescendentes, no grupo do moçambique, no do [bairro] Botujuru e puxando os carros de boi com as crianças. Só não sei onde vou desfilar esse ano. Mas que vou desfilar, eu vou.”

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