Millôr: sobre Suassuna


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Millôr Fernandes sobre Ariano Suassuna

O jornalista, humorista, desenhista, dramaturgo, poeta e tradutor Millôr Fernandes nasceu em 1923, no bairro carioca do Méier. Em 1938, iniciou sua carreira emO Cruzeiro, onde manteve, entre 1945 e 1963, sob o pseudônimo de Vão Gogo, a página dupla “Pif-Paf”. Fundou em 1964 a revista Pif-Paf, que durou apenas sete números — o oitavo foi apreendido pela Censura. Colaborou com Veja(1968-1982),  O Pasquim (1969-1975), Istoé (1983-93) e O Estado de S. Paulo, entre outros órgãos da imprensa. Atualmente escreve e desenha, como é de seu estilo, na Folha de S. Paulo, (caderno “Mais!”). Na área da dramaturgia, escreveu peças como Uma mulher em três atos (1952), Liberdade, liberdade (1966, junto com Flávio Rangel) e É… (1977). Traduziu obras de William Shakespeare e Bertolt Brecht, entre outros autores. Seu nome está associado a mais de cem espetáculos teatrais, caso de O Santo e a Porca, de Ariano Suassuna — Millôr é o autor do cartaz da montagem dirigida por Ziembinski em 1958.

“O passado, todos sabem, é uma invenção do presente. Quem busca datas para os acontecimentos já os está deturpando. Além do que, de datas eu não sei mesmo. Por isso afirmo que foi no fim dos anos 50 que me levantei entusiasmado e invejoso, no Teatro Dulcina, na Cinelândia, para aplaudir o Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Ao meu lado, fazendo o mesmo, Silveira Sampaio, médico que há pouco tinha abandonado a medicina para se transformar no autor de algumas peças  leves e refinadas, que dirigia e interpretava. Terminado o espetáculo, fomos os três para minha casa — já na praia de Ipanema, idílica então — e ficamos conversando, varando a noite. E o dia foi amanhecendo por trás das montanhas Dois Irmãos, ainda livres do Hotel Sheraton, da favela do Vidigal, dos sinais luminosos, do tráfego ensandecido, enfim, da civilização. Só com raparigas em flor caminhando cronologicamente pro encontro fatal com Vinicius e Tom.

Não me lembro de uma só palavra de Ariano. Ficou-me a forte impressão. Resíduos. A memória da memória.

Quantos encontros tive com Ariano desde então? Não mais de dez. mas em nossa profissão, lavradores do nada, o contato é permanente. E, se fiz alguma coisa para decepcioná-lo, não sei. Ele não fez nada que me decepcionasse. Não lhe cobro nem com a Academia. Merece todas as imortalidades, até mesmo essa, pechisbeque (corrida ao Aurélio).

Meu outro e imediato contato com Ariano foi em O Santo e a Porca. A pedido de Walmor Chagas e Cacilda Becker fiz o cartaz para a peça, cartaz que me defrontou um dia, para minha vergonha — sempre tenho vergonha do que faço, meu sonho é ser autor morto —, num dos caminhos do Aterro. Nem sei se Ariano jamais viu ou soube desse contato.

Enquanto isso, Ele se expandia. Professor nato — não há nada mais fascinante do que didática, e a dele é excepcional — e criador compulsivo, se fez batalhador de causas culturais populares, exibiu em espetáculos teatrais sua capacidade de representar — é um grandeshowman, quem não viu não sabe o que perdeu —, fez-se um desenhista primoroso e escreveuA Pedra do Reino, que coloco facilmente entre os 10 maiores romances brasileiros (nunca me arrisco a dizer que alguma coisa é a maior), incluindo aí Guimarães Rosa e excluindo Machado de Assis, quem quiser que me siga.

Uma das outras vezes que estive com meu herói foi no Recife, Instituto Joaquim Nabuco, onde Ele, enquanto aguardávamos minha oportunidade de incitar o povo com meu verbo flamante, recitou o primeiro poema (soneto) que escrevi na vida, aos 20 anos (já tive!, posso provar), e que também recito aqui, para vocês verem que há que ter memória:

Penicilina puma de casapopéia

Que vais peniça cataramascuma

Se partes carmo tu que esperepéias

Já crima volta pinda cataruma.

Estando instinto catalomascoso

Sem ter mavorte fide lastimina

És todavia piso de horroroso

E eu reclamo Pina! Pina! Pina!

Casa por fim, morre peridimaco

Martume ezole, ezole martumar

Que tua pára enfim é mesmo um taco.

E se rabela capa de casar

Estrumenente siba postguerra

Enfim irá, enfim irá pra serra.

No dia seguinte, autor ingrato, almoçando com Ele, cobrei ter errado uma palavra no soneto. ‘Errei não’, voltou ele. ‘Corrigi. Você é que errou a métrica.’

Somos do tempo em que havia métrica.

E a última vez em que estivemos juntos foi o momento mais extraordinário. Na casa de nosso comum amigo José Paulo Cavalcanti, jornalista, escritor e causídico (a ordem é a do leitor), numa praia de quatro quilômetros de extensão, em Porto de Galinhas. Ficamos lá horas, conversando dentro d’água, num mar indizível mas que vou tentar dizer.

A meu lado, dentro das águas claras, mansas e verdes, a presença absolutamente surreal de Ariano, secundado por (apertem os cintos!) Luis Fernando Verissimo. E eu ali, galera, me boquiabrindo diante da loquacidade brilhante de Suassuna e me boquifechando diante do mutismo perturbador de Verissimo, mostrando, como sempre, que não é homem de jogar conversa fora.

Ao redor, a meteorologia no seu melhor, enviando leves pancadas de chuva em momentos precisos, e vento sempre fresco, com dezoito nós e alguns laços — os da amizade.

PS: Ah, e existe coisa mais nobre do que criar cabras? Ele cria. Coisas de grão-senhor.”

CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, nº 10, nov. 2000. pp. 20-21.

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