Um pouco mais sobre Rubinho do Vale


RETIRADO DO SÍTIO Descubra Minas

  • Belo Horizonte - Viva o Vale - Divanildo Marques

O cantor e compositor Rubinho do Vale, que descobriu entre as ruas de Ouro Preto o verdadeiro significado da palavra cultura, conta ao Portal Descubraminas sobre o despertar de sua trajetória musical, suas desilusões, projetos e, em especial, sobre a sua posição em relação à cobertura da mídia a questões governamentais no Vale do Jequitinhonha.

Descubraminas: Conte um pouco sobre a sua história: infância na roça do pai, estudos em Rubim, experiência na capital e curso superior em Ouro Preto. É uma trajetória bem mineira, não?

Rubinho do Vale: A minha vida está representada em quatro estágios: a roça (onde eu nasci), Rubim, Ouro Preto e Belo Horizonte. Eu nasci na roça, depois fui estudar em Rubim. Aos 17 anos, fui para Belo Horizonte e, aos 21 anos, comecei a faculdade em Ouro Preto. Fiquei lá até os 26. Meu sonho era ser médico, mas como gostava muito de matemática, resolvi fazer Geologia. Nunca me passou pela cabeça virar músico. Passei dois anos estudando em Belo Horizonte – na época estava ocorrendo a Ditadura Militar e eu não tinha muito acesso às informações. O único meio de comunicação disponível era o Jornal Nacional. Só quando fui para a faculdade em Ouro Preto é que tive acesso às informações do mundo e da cultura através dos jornais e revistas da Universidade Federal. Os cinco anos que passei na Universidade fizeram minha cabeça se abrir para o mundo e para a cultura. Foi a partir desse momento que eu me descobri um artista voltado para a minha origem.


DM: No início da carreira você participou de vários festivais de música. Qual a importância desses festivais em sua trajetória? Por que esses eventos, tão fortes nas décadas de 70 e 80, perderam força?
R.V:
O meu primeiro festival foi enquanto eu cursava o meu primeiro ano de faculdade em Ouro Preto no ano de 1976. O Festival da Canção Brasileira atraía muitos turistas do Rio de Janeiro para a cidade histórica. A maioria dos artistas era carioca também. Eu me lembro que no final de 76 teve uma seca tremenda no Vale e eu fiz uma música falando disso. A letra tocava as pessoas, mas a melodia era muito ruim. Depois desse primeiro prêmio eu comecei a participar de outros festivais, mas não ganhava nenhum. Por um momento pensei que este não era o caminho, precisava aprimorar minhas técnicas e conhecer um pouco mais sobre a música brasileira. Em 1979, voltei a participar de festivais e aos 27 anos voltei à minha infância e comecei a compor e a falar do Vale do Jequitinhonha nas minhas canções. Nunca mais trabalhei na música premiada do meu 1º festival. A letra dizia mais ou menos assim: Etâ seca forte lá no Norte, que maldição, Eh meu Deus porque não quer chover lá no sertão…

Os festivais de música são sempre emocionantes. No festival a adrenalina sobe porque você tem direito a cantar somente uma música. A pressão emocional é muito intensa e o artista tem que adquirir segurança na marra. Para o artista que ainda não é profissional, os festivais são muito importantes e interessantes porque é um meio das pessoas conhecerem o trabalho e é uma porta de entrada para oportunidades futuras. Minas Gerais tinha muito festival. Na década de 80 acontecia aqui em Belo Horizonte o ‘Festival dos Festivais’, organizado por Tadeu Martins e que reunia os melhores festivais do Estado. São Paulo ainda preserva essa tradição, mas eles já estão perdendo força também. Creio que os festivais perderam força porque muitos artistas eram cartas marcadas contratados pelas gravadoras. As gravadoras já sabiam que estes iriam vencer e os artistas como eu, que faziam suas inscrições para disputar, achando que poderiam ganhar, ficavam frustrados. Temos também como agravante as micaretas e os falsos forrós que contagiaram um grande número de público e dificultaram o acesso aos festivais e à cultura. Mas há ainda muitos festivais bons em Minas que estão tentando resgatar essa cultura tão rica do Estado, como é o caso do Festivale.

DM: Você é autodidata. Não estudou música e desenvolveu sua própria técnica de tocar. O fato de não ter freqüentado uma escola de música causou algum empecilho para sua carreira?
R.V:
A formação teórica não é o essencial na carreira de um profissional. Há outros atributos tão importantes quanto a base teórica e que devem ser levados em consideração. Quem é autodidata tem uma facilidade tremenda para pegar as coisas. Se você for autodidata, gostar do que faz e ainda ter um embasamento teórico, melhor ainda. O fato de não ter freqüentado uma escola de música não foi nenhum empecilho, acredito que o mundo é uma excelente escola para tudo. Você aprende muita coisa boa e ruim ao mesmo tempo. O interessante da música é que ela tem essa força natural de envolver as pessoas e quem tem aptidão pode aprender com ou sem a escola.

DM: Quais são os compositores que influenciaram sua carreira?
R.V:
Geraldo Vandré, Elomar Figueira, Chico Buarque, Luiz Gonzaga, Alceu Valença, Tom Jobim.

DM: Como acontece o processo de composição? Você fica sozinho, isolado do mundo ou a inspiração vem sem avisar?
R.V:
Mesmo se eu estiver no meio de 1 milhão de pessoas eu me isolo, é a questão da concentração. A inspiração pode acontecer a qualquer hora. Uma vez, quando estava viajando de ônibus tive esse momento mágico, guardei a música na cabeça até a primeira parada. Ao chegar na lanchonete eu escrevi a letra em um guardanapo e guardei no bolso. Já perdi muita letra assim, pois escrevia no papel e depois perdia. Gosto muito de trabalhar com a inspiração. É algo que vem, que você cria e que é seu orgulho.
DM: Suas músicas retratam a realidade do Vale do Jequitinhonha. Você acredita que as intervenções do Governo na região surtiram algum resultado concreto para a população?
R.V:
O governador Newton Cardoso encheu de estrada o Vale do Jequitinhonha. Estrada significa escoamento de alguma produção e desenvolvimento regional. Não sei se houve alguma ação para estimular esses dois aspectos. Pelo que vejo e acompanho, acho que não houve. O fato de ter uma Universidade Federal em Diamantina já é um bom passo, espero que a represa de Irapé gere energia não só para fora, mas para o Vale também. E que as pessoas que moram na região beneficiada pela represa não sejam prejudicadas pela sua construção, pelo contrário, que elas tenham acesso aos recursos gerados.
DM: Empresas privadas têm se dedicado a ações institucionais que privilegiam a responsabilidade social e eventos que lhe proporcionam visibilidade. Um exemplo é o Viva o Vale, que está sendo patrocinado pela iniciativa privada. Existe uma facilidade maior para que esses projetos e eventos sejam patrocinados por empresas, ao invés de contar com o apoio do Governo?
R.V:
Na verdade o projeto “Viva o Vale” é patrocinado pela iniciativa privada, mas a verba é pública, adquirida através da Lei de Incentivo à Cultura. Quer dizer que a marca da empresa sai com o dinheiro do povo. É importante a iniciativa privada nesse caso porque ela possibilita o investimento em vários projetos voltados para o Vale do Jequitinhonha e isso estimula o desenvolvimento cultural da região. A partir do momento em que as empresas despertarem para esse marketing cultural – que é muito mais barato do que a mídia de propaganda -, e começarem a investir mais nesse aspecto, a cultura irá melhorar muito.


DM: O Vale do Jequitinhonha possui fauna, flora, artesanato e cultura riquíssimos. Como você vê a tendência da mídia em abordar a região sob o aspecto da miséria e da fome? Há como modificar essa imagem mostrada há anos para o grande público?
R.V:
O enfoque da pobreza e da miséria tem mudado, mas ainda há muita gente no Vale do Jequitinhonha que tem que abandonar sua terra e ir trabalhar em outros lugares porque não tem oportunidade e infra-estrutura necessária para se desenvolver. Há cidades que se destacam pelo seu desenvolvimento, mas a maioria da população sofre com esta falta de oportunidade. A visão do Vale tem mudado. Hoje as pessoas estão falando mais sobre as riquezas do Jequitinhonha e seu artesanato. Isso contribui para diminuir a evasão de jovens. Na verdade a imagem da fome e da miséria passada pela mídia só serve para deturpar a imagem do Vale e encobrir ações do governo que só ficam na promessa.

A imagem negativa passada é logo mascarada pelas promessas futuras de desenvolvimento para a região que só servem para conseguir sugar o voto das pessoas. Às vezes a mídia relata que haverá liberação de recursos e estes nunca chegam até às pessoas. Esses recursos, muitas vezes, são desviados e os prefeitos das cidades do Jequitinhonha “mordem” e fazem uma bagunça no dinheiro que deveria ser público. Penso que ao manter essa imagem negativa e de miséria do Vale do Jequitinhonha, a mídia contribui para a estratégia política de obtenção de voto e desvio de dinheiro público, na medida em que há propostas e mais propostas de emendas que nunca saem do papel e que poderiam propiciar o desenvolvimento do município. O Vale tem muito lugar para ser desenvolvido, mas falta interesse político.
DM: O que você acha da desvalorização da música regional e a super valorização de músicas estrangeiras no Brasil?
R.V:
A super valorização das músicas estrangeiras tem diminuído bastante e tem tocado muita música brasileira. Mas a indústria de consumo que a mídia prega tem estimulado muito a compra de produtos desnecessários e nocivos às pessoas. A música nacional tem tido mais espaço e a regional está mantendo o espaço pequeno que ela sempre teve. Alguns programas de televisão continuam fomentando essa regionalidade. O que é lamentável é o pouco espaço nas rádios, dedicado às músicas regionais e de raiz. O que acho interessante é que 90% da população de Belo Horizonte tem o pé no interior e fica louca para o final de semana chegar, para colocar o pé na terra, ou tem o desejo de comprar um sítio ou uma fazenda. Então, porque as músicas têm que falar sempre do urbano? A música rural fala de lua, entardecer, fala dos pássaros, riachos e onde está isso? Está no campo e não tem programa. Quando tem é de 5 às 6 da manhã. Não há horário nobre para levar a música regional para o povo. Isso é um preconceito com a cultura popular. Cultura essa, que mora no coração de 90% da população mineira. Se não morasse, as cidades do interior não ficariam tão cheias no final de semana. Isso porque, no fundo, todo mundo quer calçar uma bota e ir para a roça, ouvir o canto dos pássaros e tomar um cafezinho quentinho, adoçado com rapadura. A população brasileira tem um grande defeito: ela acha mais interessante valorizar a cultura estrangeira do que a regional. A música ‘Notícias do Brasil’, de Fernando Brant, retrata um pouco sobre isso.

DM: Conte sobre seu projeto na cidade de Rubim.
R.V:
Eu tenho vontade de gravar alguns discos sobre o Vale e em especial sobre a cidade de Rubim. Eu incentivo as pessoas do Vale a lançar candidatos políticos porque tem coisa que só a política faz. A cultura movimenta e faz acontecer, mas não tem a mesma força da política. Eu sempre quis fazer algo por Rubim e nunca consegui realizar isso, porque não tinha recurso. Irei aproveitar essa parceria com o “Viva o Vale” e gravar algumas músicas com alguns artistas da cidade. Existe em Rubim, dois grupos de boi (bumbá), folia de reis e um tocador e poeta com mais de 80 anos, o ‘seu’ Pinaco, e eu pretendo incluí-los nesse trabalho.
DM: Você tem seis discos dedicados às crianças e desenvolve trabalhos em escolas mineiras e de outros estados. Além disso, há um projeto de um programa educativo na Rede Minas. Fale sobre esta relação entre Rubinho do Vale e o público infantil.
R.V:
Já estava tudo pronto, inclusive já tinha sido veiculado na imprensa informações a respeito do programa. Depois de dois anos de expectativa e preparação, a Rede Minas cancelou o contrato, mas eu pretendo levar esse projeto adiante. Por enquanto eu vou continuar cantando para as crianças e para o Vale. Estou com o projeto aprovado na Lei Federal de Incentivo à Cultura e talvez faça por outra emissora, em rede nacional. A minha relação com as crianças é muito boa porque é uma relação sem enganação, eu viro criança junto com elas. Nas escolas eu sempre faço uma apresentação para os pequeninos e ofereço uma oficina de música para os professores, que recebeu o nome de ‘Cantoria Pedagógica’. Nela, os ensino sobre a importância da música na educação e a interação entre os alunos. A oficina tem duração de 4h.


DM: Como será sua participação no Festivale, entre os dias 23 e 29 de julho em Araçuaí?
R.V:
Eu vou lá cantar, mostrar o meu trabalho e aproveitar toda a diversidade cultural do evento.


DM: Como a cultura pode se transformar num mecanismo efetivo para impulsionar todo o Vale do Jequitinhonha?
R.V:
A cultura impulsiona, mas ela tem que vir acompanhada pela educação, profissionalização, dinamicidade da comunicação e pelo amor à terra e ao trabalho. Ela proporciona o primeiro passo para o desenvolvimento sustentável do Vale do Jequitinhonha, mas sem a participação forte do poder público fica difícil impulsionar a região. Às vezes, eu me sinto impotente de ser apenas cantor, gostaria de fazer mais pela minha terra.


DM: Fale sobre a nostalgia do show realizado no Palácio das Artes, mês passado, e sobre seus próximos passos.
R.V:
O show no Palácio das Artes foi mais ou menos uma revisão do meu trabalho. Foi uma festa de confraternização para dar uma sacudida na carreira e continuar na estrada. Em julho farei algumas apresentações como: o Festivale; uma apresentação em Brasília e o encontro dos quilombolas. No mesmo mês irei, ainda, dar uma “palhinha” no seminário sobre o Estatuto da Criança e adolescente no Minascentro.

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