Catimbó – Ascenso Ferreira

CATIMBÓ
De Ascenso Ferreira

Mestre Carlos, rei dos mestres,
aprendeu sem se ensinar…
– Ele reina no fogo !
– Ele reina na água !
– Ele reina no ar !

Por isto, em minha amada, acenderá a paixão que consome !
Umedecerá sempre, em sua lembrança, o meu nome !
Levar-lhe-á os perfumes do incenso que lhe vivo a queimar.

E ela há de me amar.
Há de me amar…
Há de me amar…
– Como a coruja ama a treva e o bacurau ama o luar !

À luz do sete-estrelo nós havemos de casar !
E há de ser bem perto.
Há de ser tão certo.
como que este mundo tem de se acabar…

Foi a jurema da sua beleza que embriagou os meus sentidos !
Eu vivo tão triste como os ventos perdidos
que passam gritando na noite enorme…

Porque quero gozar o viço que no seu lábio estua !
Quero sentir sua carícia branda como um raio da lua !
Quero acordar a volúpia que no seu seio dorme …
E hei de tê-la,
hei de vencê-la,
ainda mesmo contra seu querer …
– Porque de Mestre Carlos é grande o poder !

Pelas três-marias… Pelos três reis magos … Pelo sete-estrelo…
Eu firmo esta intenção,
bem no fundo do coração,
e o signo-de-salomão
ponho como selo…

E ela há de me amar…
Há de me amar…
Há de me amar…
– Como a coruja ama a treva e o bacurau ama o luar !

Porque Mestre Carlos, rei dos mestres,
reina no fogo… reina na água… reina no ar…
– Ele aprendeu sem se ensinar…

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Morte e Vida Severina – Animação

Chegando – Thaumaturgo Vaz

Chegando

Venho mesmo não sei de que Degredo
Improvisando altares no caminho,
A rezar, de olhos fitos no arvoredo,
Missas Negras sem hóstias e sem vinho.

Lá nos conventos monacais do Medo
Tomei de um frade este burel de linho…
E, da Vida no estúpido rochedo,
Eis-me na encosta a caminhar sozinho.

Poetas de todo o Mundo, vinde ouvir-me!
– Que um Monge Bom, com os olhos rasos d’água
Quase às portas da Morte, porém firme,

Vai produzir, numa oração sentida,
Desse intangível púlpito da Mágoa,
Todo um sermão de Lágrimas à Vida!

(Missas negras)

Poema de Natal – Carlos Pena

Poema de Natal
(in Livro Geral, 1959)

-Sino, claro sino, tocas para quem ?
-Para o Deus menino que de longe vem.
-Pois se o encontrares, traze-o ao meu amor.
-E o que lhe ofereces, velho pecador ?
-Minha fé cansada, meu vinho, meu pão,
Meu silêncio limpo, minha solidão.

Carlos Pena

Poema ‘Chopp’ – Carlos Pena Filho

CHOPP
Carlos Pena Filho

Na avenida Guararapes,
o Recife vai marchando.
O bairro de Santo Antonio,
tanto se foi transformando
que, agora, às cinco da tarde,
mais se assemelha a um festim,
nas mesas do Bar Savoy,
o refrão tem sido assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.

Ah, mas se a gente pudesse
fazer o que tem vontade:
espiar o banho de uma,
a outra amar pela metade
e daquela que é mais linda
quebrar a rija vaidade.

Mas como a gente não pode
fazer o que tem vontade,
o jeito é mudar a vida
num diabólico festim.

Por isso no Bar Savoy,
o refrão é sempre assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.