Raimundo Carrero lança livro

RETIRADO DO JORNAL O Globo

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Raimundo Carrero lança livro com textos dele e de Ariano Suassuna desaparecidos há 40 anos
Escritor pernambucano fala sobre obra redescoberta, testemunho da longa e prolífera amizade entre os dois autores
POR LETÍCIA LINS
08/11/2014 7:00

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Ilustração de Marcelo Soares para o livro “Romance do bordado e da pantera negra”, com textos de Raimundo Carrero e Ariano Suassuna

RECIFE — Autor de 23 livros, com um novo romance previsto para o início do próximo ano — “O senhor agora vai mudar de corpo” (editora Record), no qual relata o drama sofrido após um acidente vascular cerebral ocorrido em 2010 —, o escritor Raimundo Carrero está vivendo uma saga digna das histórias fantásticas com as quais tanto conviveu, quando jovem, na leitura de folhetos de cordel na cidade sertaneja de Salgueiro, onde passou a infância e o início da adolescência. Naqueles tempos, eram frequentes os cantadores e violeiros nas feiras do interior. Um conto seu, inspirado nos heróis da literatura popular e posteriormente transformado em poema de cordel por Ariano Suassuna, acaba de ressurgir, mais de 40 anos depois de ter desaparecido em uma enchente do Rio Capibaribe.

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Veríssimo

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O encontro

De repente, descendo na nossa direção pela praia como uma aparição, um convidado para que o dia fosse mais que perfeito: o Ariano Suassuna

Os peixinhos nadavam por entre as nossas pernas. Estávamos no mar em frente à casa do José Paulo e da Maria Lecticia Cavalcanti, Praia do Touquinho, Lagoa Azul, Pernambuco, Brasil, América do Sul, Terra, Via Láctea, universo, com água pela cintura. Quem éramos nós? Millôr e Cora, Gravatá, Lucia, eu e peixinhos anônimos. Zé Paulinho e Maria Lecticia tinham providenciado tudo para que o prazer dos seus hóspedes fosse completo: sol decididamente pernambucano, céu e mar de um azul irretocável, uma mesa flutuante com guarda-sol em cima coberta de coisinhas para comer e bebidinhas para beber. A um sinal do Zé Paulinho, vinham mais camarão, mais marisco, mais caipirinha, mais pássaros, menos pássaros, mais brisa, menos brisa — e de repente, descendo na nossa direção pela praia como uma aparição, um convidado convocado pelos Cavalcanti para que o dia fosse mais que perfeito: o Ariano Suassuna. De calção de banho! Ele entrou no mar, e os peixinhos continuaram nadando entre as nossas pernas, sem nenhuma curiosidade intelectual. Eles só estavam ali para pegar os restos da mesa flutuante, alheios ao grande momento, como se um encontro de Millôr Fernandes e Ariano Suassuna com água pela cintura acontecesse todos os dias. Nós, ao contrario dos peixinhos, nos encharcávamos do momento. Eu, chupando um picolé de mangaba — eu mencionei que também havia picolés de mangaba? — finalmente descobria o sentido da palavra “embasbacado”. Depois do encontro no mar, um almoço magnifico — não fosse comandado pela dona Maria Lecticia. E o dia mais que perfeito terminou com uma visita a um terreno próximo onde o Zé Paulinho criava bodes. Nosso anfitrião queria nos mostrar um animal que importara da Africa do Sul e que, de tão antipático e posudo, recebera do Suassuna o apelido de “Somebode”.

SHOW

Uma aula do Suassuna era um show, um show do Suassuna era uma aula. Além de produzir ele mesmo boa parte da cultura contemporânea da sua terra, Suassuna conhecia como ninguém a História (e as histórias), as artes e as tradições do Nordeste, esse outro mundo dentro do Brasil, e lutava para mantê-las vivas. Tinha uma memória fantástica, poemas enormes decorados inteiros para qualquer ocasião, e era notável sua capacidade de, aparentemente, se perder em digressões quando falava sobre determinado assunto, a ponto de criar uma expectativa nervosa na plateia — será que ele volta para o assunto ou não volta? — e retomar o que estava dizendo do ponto exato da digressão, para alivio geral. O Brasil perdeu um tesouro.

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Millôr: sobre Suassuna

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Millôr Fernandes sobre Ariano Suassuna

O jornalista, humorista, desenhista, dramaturgo, poeta e tradutor Millôr Fernandes nasceu em 1923, no bairro carioca do Méier. Em 1938, iniciou sua carreira emO Cruzeiro, onde manteve, entre 1945 e 1963, sob o pseudônimo de Vão Gogo, a página dupla “Pif-Paf”. Fundou em 1964 a revista Pif-Paf, que durou apenas sete números — o oitavo foi apreendido pela Censura. Colaborou com Veja(1968-1982),  O Pasquim (1969-1975), Istoé (1983-93) e O Estado de S. Paulo, entre outros órgãos da imprensa. Atualmente escreve e desenha, como é de seu estilo, na Folha de S. Paulo, (caderno “Mais!”). Na área da dramaturgia, escreveu peças como Uma mulher em três atos (1952), Liberdade, liberdade (1966, junto com Flávio Rangel) e É… (1977). Traduziu obras de William Shakespeare e Bertolt Brecht, entre outros autores. Seu nome está associado a mais de cem espetáculos teatrais, caso de O Santo e a Porca, de Ariano Suassuna — Millôr é o autor do cartaz da montagem dirigida por Ziembinski em 1958.

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NÃO PERCAM

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VEJA TAMBÉM que na quarta feira, dia 30/07/2014 será exibida sua ‘última’ entrevista no Canal Brasil

Ariano Suassuna era um iluminado, com uma memória prodigiosa. Conversar com ele era uma aula de mundo e de vida. Tinha um olhar pícaro e ágil, e conversava com humor contido mas permanente. Era dono de um conhecimento assombroso, que desfazia qualquer fronteira entre a chamada cultura erudita e a popular. Para Ariano, a vida e a arte eram muito mais que essas divisões que ele desprezava olimpicamente. Eram o resultado da capacidade humana de sonhar e acreditar no sonho, de imaginar as realidades ocultas naquilo que se vê e, assim, recriar a vida. Dizia que a arte não tem uma utilidade prática, mas uma função clara: aumentar a beleza e a alegria do mundo. Tinha certeza de que imaginação e realidade estão altamente entrelaçadas.

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Ariano Suassuna – A Arte como Missão